Coração branco e azul

Escrevo estas linhas ainda com as emoções rebordando polas horas de felicidade vividas na Corunha o dia 12 de maio de 2024, data do regresso do Dépor à segunda categoria do futebol masculino.

— Também tu vais falar de futebol?

Vou, sim.

Falar de futebol não é, para mim, motivo de vergonha. Por mais que seja tentar falar racionalmente de algo que é absolutamente irracional: o tributo a umas cores, neste caso a branca e a azul.

Chegámos bem cedo à Corunha para nos embebedarmos do ambiente de uma cita histórica. Não era 19 de maio de 2000… nem falta que fazia! Desde as primeiras horas do dia, as crianças brincavam vestidas com as cores branca e azul, bem fossem ornamentos, bem fossem fantasiadas dos seus ídolos.

Passear pola Corunha era uma delícia, especialmente pola avenida de Buenos Aires, a praça de Portugal… Tomar umas bebidas frescas na contorna de Riaçor também era uma opção atraente.

Porém, conforme os ponteiros do relógio fôrom avançando, a mobilidade foi ficando cada vez mais complicada: uma imensa maré branca e azul inundava a cidade de bem além do Matadoiro, estendendo a alfombra humana para abraçar simbolicamente o autocarro com os jogadores.

A massa, perfeitamente organizada como peixinhos em cardume, avançava como um só ser cara ao estádio e a zona para seareiros/as habilitada nas imediações. Mais de trinta mil pessoas coubérom no estádio e eu juraria que outras tantas rebordavam as redondezas, se bem as autoridades autorizantes não cifrárom mais de vinte mil —e nós, entre elas.

— Só vim algo parecido quando o Nunca Mais ou na primeira grande manifestação contra o Decretaço antigalego do Feijóo, acertei comentar.

O futebol move paixões. Como dizia, falar de futebol é tentar ordenar racionalmente algo que excede o raciocínio. A pessoa militante mobiliza-se por aquilo que é justo ou contra aquilo que é injusto, mas sabe que tem que estar ali. As seareiras aparecem ali, na meirande parte dos casos, porque é o natural, orgânico.

— O futebol, ópio do povo! Pão e circo!

Absolutamente. E daí?

Como defensor ferrenho da abolição do trabalho, tenho entre as minhas leituras de referência O direito à preguiça (Paul Lafargue, 1883). Para ele, a preguiça é uma virtude capaz de fortalecer o espírito da classe operária, preparando-a para a revolução que a emancipará. Mas além dessa utilidade revolucionária, a preguiça também se revela como remédio aos problemas quotidianos, algo polo qual não nos devemos sentir culpados:

«Ó, Preguiça! Tem piedade da nossa longa miséria! Ó, Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!».

O culto ao trabalho e o martírio constante por não sermos o suficientemente bons marxistas já cansa um pouco. Especialmente na Galiza. Não por acaso Lafargue nomeia o povo galego no leque de «raças para quem o trabalho é uma necessidade orgânica», junto de escoceses, auvernhats, pomerânios ou chineses.

Em Adeus ao proletariado. Para além do socialismo (1987), André Gorz teoriza a necessidade de uma sociedade onde o lazer seja um elemento central, priorizando «viver mais» acima do «trabalhar menos». Dentro desse viver mais temos, jaora, o nosso direito ao goze com o pão e circo que melhor nos prestarem.

Uma vitória no futebol faz-nos esquecer as misérias quotidianas. É uma moderada dose de alegria que, por um breve período de tempo, nos leva a caminhar sobre núvens de algodão e a esquecer as tristezas. É quer fútil, quer efémero, mas não é uma miragem, porque o prazer sentido é real, está aí, fruto do impacte no nosso cérebro de compostos secretados polo próprio corpo humano que se podem medir objetivamente com parâmetros científicos.

Quando Lucas chuta à beira da área e converte o livre direto num golo, o estouro de alegria da multidão branca e azul foi o prelúdio da produção de incontáveis doses de substâncias como a oxitocina e a dopamina, hormonas associadas ao prazer. Também de outras como a adrenalina, vinculada quer a situações de estresse, medo, prazer… e sempre como muita atividade cardiovascular polo meio —especialmente se fores do Dépor.

Não vou negar a forte coleção de contradições que me suscita ser seareiro de um clube de futebol cujo máximo acionista é uma entidade bancária e que o vindouro ano formará parte de uma Liga profissional —em resumo, parte de uma classe oposta à minha—. Mas novamente aí voltam à tona o irracional e, provavelmente, ainda o efeito subjacente de algumas das substâncias mencionadas. E que o bem que o passámos ontem na Corunha era uma sensação real; deixem-no-la saborear enquanto pudermos.

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