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Por uma esquerda de mão da ciência

Começa um novo ano e ainda continuo a pedir o mesmo: uma esquerda que caminhe de mão da ciência. Há poucas cousas na vida que podemos dar por certas ou em que podemos confiar. Por vezes nem sequer é a família, a pessoa amada ou mesmo o que nos parecem indicar os nossos sentidos. A ciência, porém, é dessas cousas em que podemos confirar quase a olhos nus. Quase, porque a ciência não é fé.

Para a geração a que pertenço, a da covid-19 é a primeira pandemia que bate nas suas vidas. Entre as gerações precedentes já poucas lembranças ficam da anterior pandemia, a da mal chamada gripe espanhola (1918-1920), mas restam abondos testemunhos de andaços ou surtos de outras doenças infeccionsas graves, como o sarampo ou a tuberculose.

A ciência é confiável porque o método científico é a melhor ferramenta elaborada polos seres humanos nos últimos dous séculos e meio. O método científico permite reduzir ao mínimo quer a manipulação, quer o erro humano. E, ao ser um sistema em constante verificação, os erros ou falsas hipóteses não demoram demasiado tempo em serem refutadas.

A pandemia da covid-19, como muitas outras crises recentes do hipertecnológico século XXI, foi um terreno fértil para as notícias falsas, as manipulações, o confronto de interesses e as teorias da conspiração. Também o foi para determinados indivíduos e movimentos ditos alternativos que parasitam a esquerda com postulados abertamente acientíficos.

A questão das vacinas é um elemento central para estes personagens (alguns, com vastas redes de contatos). Apesar da evidência científica e da contundência dos dados, permitem-se dizer com total impunidade várias falsidades. Vou referir apenas três, pois são as que mais vezes repetidas encontrei:

  1. As vacinas não funcionam, porque os contágios estão em termos similares a 2020.
  2. Não apenas haverá terceira dose da vacina, mas quarta, porque isso se deduz da quantidade de doses compradas polos países ricos.
  3. Ao redor das campanhas de vacinação há um único interesse, que é garantir lucros multimilionários para as poderosas indústrias farmacêuticas, mesmo apesar dos dados demonstrarem a ineficácia das vacinas.

O primeiro ponto é simplesmente falso. As vacinas funcionam. Aliás, funcionam muito bem. Há um ano, janeiro de 2021, andávamos ao redor dos 25 falecimentos diários na Galiza por mor da covid-19. Atualmente, três. O objetivo das vacinas nunca foi evitar os contágios (aliás, impossível, dado que as taxas de eficácia roldam 90%, não 100%), mas evitar as complicações graves e a morte. Os dados também demonstram que a igual ou semelhante número de pessoas contagiadas, os óbitos registados são até oito vezes menores. Portanto, insisto: as vacinas funcionam muito bem.

Quanto ao segundo, é normal haver muitas mais doses do que população para ser imunizada. Primeiro, porque as vacinas têm uma data de caducidade limite e, infelizmente, centos de milhares de doses acabam sendo desbotadas antes da sua administração. Segundo, polos compromissos internacionais para doar um determinado número de doses aos países mais pobres. Terceiro, porque a dia de hoje ainda desconhecemos quantas doses serão necessárias para conter o vírus.

E isto último não é um fracasso da vacina, mas mais uma prova da sua eficácia. As vacinas no mercado fôrom desenvolvidas ao mesmo tempo que começou a pandemia e tinham como alvo uma versão do vírus bastante diferente da atual. A atual variante dominante, a ómicron, tem cerca de cinquenta mutações (algumas muito sensíveis, como as referentes à espiral proteica do vírus), e mesmo assim as vacinas continuam a proteger de maneira satisfatória.

Além do mais, sabemos que os coronavírus (um tipo de vírus muito estudado) mutam com muita facilidade. Mutam, recombinam-se com outras variantes ou vírus da mesma família… Nisso apresentam um comportamento similar aos vírus da influenza (gripe). E da gripe vacinamo-nos anualmente, como qual nem terceira, nem quarta, nem décimo nona dose, mas ad aeternum. Veremos o que a ciência diz respeito deste vírus tão contumaz e incómodo.

Já no referente ao terceiro, sim, as farmacêuticas são o mal. Como em tudo, haverá exceções, mas as farmacêuticas são empresas e o seu primeiro objetivo é fazer dinheiro. O segundo objetivo é também fazer dinheiro. E o terceiro é… Correto, isso mesmo que tendes na ponta da língua. As farmacêuticas são um dos tipos de empresas que mais odeio e não me faltam motivos. Mas se os seus produtos funcionam e podem salvar milhões de vidas (cousa que nem sempre acontece), é estúpido promover o boicote.

As farmacêuticas já demonstrárom que o seu objetivo não é erradicar a pandemia, mas lucrarem-se no processo. Não estão interessadas em que a administração seja anual e por vida, porque isso seria visto como um produto defetuoso e arriscariam a uma queda bolsista, a depreciação do produto e mesmo à anulação das suas multimilionárias patentes. Interessa-lhes que as vacinas funcionem, por isso desenvolvêrom uma sorte de corrida armamentista por terem a vacina antes do que ninguém e cobrá-la ao preço mais alto possível.

Falando nisso, esta crise sanitária demonstrou-nos a importância de contarmos com uns serviços públicos fortes, capazes de aguentar sem fissuras uma situação crítica. Mas também nos demonstrou a importância da investigação científica e em particular a farmacêutica. E um elemento tão fundamental não pode ficar subjugado aos interesses da multinacionais que apenas procuram o lucro. A investigação farmacêutica é uma cousa tão séria que deve formar parte dos investimentos públicos e com um peso cada vez maior do setor público, favorecendo desta maneira a socialização dos seus resultados.

Colofão

Facta, non verba. Os factos são teimosos. Oxalá 2022 seja um ano prolífico para a ciência, consigamos livrar-nos da covid (ou contê-la à mínima expressão) e enviemos fora dos nossos círculos (pessoais, sociais, organizativos) aqueles elementos daninhos que predicam contra a evidência científica, situando as suas teimas pessoais por diante da saúde e da vida das pessoas.

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