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Quatro motivos para ser reintegracionista

Motivos para ser reintegracionistas há uma cheia deles. Cada pessoa tem um ou vários motivos, nem sempre coincidentes, da mesma maneira que cada pessoa tivo a sua porta de acesso a esta corrente linguística cuja ideia central é que o galego e o português são duas faces da mesma moeda. Noutras palavras, o galego, sem o português, não faz sentido, como o português sem o galego.

Sem vontade de ser exaustivo, coloco a seguir só quatro (bons) motivos para ser reintegracionista, ordenados alfabeticamente.

Científicos

Para separar galego de português é necessário recorrer à ciência. Do ponto de vista científico, é impossível constatar que galego e português sejam línguas diferentes. Podem ter essa consideração, sim, mas só por vontade política. É a conclusão que recentemente figérom pública dous dos mais prestigiosos especialistas galegos no âmbito da linguística computacional, José Ramom Pichel e Paulo Gamalho. Até o século XV, os córpus linguísticos estudados demonstram que a distância entre o galego e o português «é mínima», salientam os especialistas.

O que nos diz a ciência é que, quanto mais espanholizada a ortografia do galego, mais próximidade tem cara ao castelhano respeito do português. Em definitiva, cumpre-se a sentença de Carvalho Calero: «o galego, ou é galego-português ou é galego-castelhano, não há outra alternativa».

Históricos

Deste ponto de vista, o galego e o português nunca se separárom totalmente. Se houvesse que fixar uma data, seria bastante arbitrária. Segundo alguns autores, «as diferenças entre o galego e o português já estariam claras na Idade Média» (Wikipédia), o qual é simplesmente um disparate: a língua tinha tantas diferenças a norte e sul do Minho como de ocidente a oriente. Houvo, sim, determinadas escolhas —designadamente ortográficas— que assentárom mais a sul do que a norte, principalmente depois da independência portuguesa (1139). Porém, a língua continuou a ser essencialmente a mesma.

Sabiam quantos esta carta viren commo eu Maria Rodrigues con outorgamento de meu marido, Iohan Paez, que esta presente, et eu Marina Rodriguez por min, et eu Gonçalvo Rodrigues por min, hirmaos, fillos que fomos de Ruy Garçia et d’Onega Peres, de boo curaçon et de boa voontade mandamos a vos Garçia Fernandez de Santa Maria Alta, et a vossa muler Aldara Eanes, a sesta parte do cassal de Matello, que foy do noso avoo don Garçia Suares, sub signo de Santa Maria Alta, con todas suas pertenenças et dereyturas peru quer que vaa, a monte et a fonte, et huna oytava et terça de çeveyra et tres soldos et medeo de dineiros que nos avemos en esa yglesia sobredita de Santa Maria Alta cada anno, et reteemos para nos o padroadigo d’apresentar que vos non vendemos y. Et reçebemos de vos en preço por esta vençon sobredita treçentos et LXXV moravedis a XI dineiros minus terça d’un por cada moravedi, da moneda del rey don Fernando de que somos ben pagados et entregos, et obligamos todos nossos bees a vos fasermos sempre esta vençon sobredita de pas, des oye mays avedea senpre en pas vos et a vossa voz pus vos o nosso senorio removoudo et o poder.
Documentos da Catedral de Lugo (Galiza), 1308 (GMH)

In nomine dominj amen. Eu María iohanes de Gomíaes faço carta de uẽdiçõ e de perdurauil firmidoe. A uos Sũcha giraldiz. do quarto da Leyra que my acaeçeu de parte de meu irmão Domĩgíuãhes ẽ casal de Nuno na fréeguesia de san Çibrão cõ seus dereytos e pertẽẽças. por preço que de uos reçebj́ cõuẽ a ssaber. sete. maravedis. e meyo e sa Reuora. Tanto a my e a uos prougue. e do preço nehũa cousa ficou por dar. Auede uos daquj́ adeãte o dito quarto de dita Leyra firmemẽte por senpre e quantos depus uos ueerẽ. E se alguẽ contra esto quiser uíj́r peyta a uos e a quẽ uossa uoz derdes peyte á el. d soldos da bõa moeda. e esta Carta star firme. ffeyta a Carta. xx vij dias de Janeiro. Era. Mª CCCª Lª e dous anos. testemunhas. Giralde steuẽz. e Stevam paez Tabaliões. Giral martinz. E eu Pero salgado Tabaliõ de Gimarães á rrogo das partes esta Carta screuj́. e pug[i este] meu signal ẽ testemõyo de uerdade […]
Documentos notariais, Guimarães (Portugal), 1314 (CIPM)

Como é fácil verificar, aquém e além Minho a língua era indistinguível em dous pontos tão geograficamente distantes como Lugo e Guimarães, separados por uns 180 km em linha reta (uns 270 km e mínimo 3 horas indo de carro hoje em dia), bastante mais do que os 145 km em linha reta que separam a cidade da muralha da capital asturiana, Uviéu. Em ambos os dous exemplos há inúmeros traços comuns, como a vacilação nos usos de -ez e -es nos antropónimos (Paez, mas Rodrigues, no caso galego; Ihoanes, mas Giraldiz, no português), o uso do ípsilon nos ditongos (foy, oytava, peyta…)… No exemplo de documento galego temos também a forma «treçentos», a qual revela uma pronúncia diferente da que triunfou no português moderno («trezentos»), forma que também podemos encontrar noutros textos portugueses da mesma época. E no exemplo de documento português, temos a forma «dous», tão genuinamente galega frente à que triunfaria em Portugal («dois»).

Quando os textos formais galegos —mas não a língua falada pola maioria do povo galego, ágrafo— começam a se distanciar mais dos portugueses é já no final da Idade Média e começo da Idade Moderna, no século XV. Mas não se deve a uma separação entre as línguas, mas a uma enxurrada de castelhanismos na prosa notarial ou eclesiástica galega, que pouco a pouco dariam pé a documentos exclusivamente redigidos em castelhano.

Identitários

O reintegracionismo devolve ao galego a sua identidade como parte inseparável do tronco comum galaico-português. Reinsere-nos a todas as galegas e galegos num mundo que nos é próprio, a Lusofonia, e reinsere também os portugueses e portuguesas na sua própria história: em que o português é o nome internacional para a língua que historicamente se chamou sempre galego.

O reintegracionismo devolve-nos, também, a conexão com a língua dos nossos antepassados. E não me refiro aos trovadores de há oito séculos, mas aos nossos próprios pais, mães ou avós. Eu próprio, um neno da Terra Chã alfabetizado no galego ILG-RAG e no castelhano, sofrim um certo choque e, ao tempo, uma revelação a primeira vez que tivem nas mãos um texto redigido em português, concretamente na sua vertente brasileira. O que eu julgava serem dialetalismos ou mesmo vulgarismos apareciam na letra impressa num produto destinado ao público, comercializado. Palavras como «artefato», «direito», «muito», «bom», «chão»… Que formam parte do meu galego e que se distanciam bastante das formas em que fum escolarizado (artefacto, dereito, moito, bo, chan).

O reintegracionismo também implica um novo encaixe mental. Deixamos de estar sós no mundo. E, de supetão, palavras que críamos exclusivamente galegas, genuinamente galegas, enxebres, mesmo próprias só de uma recôndita comarca do País, verificamos serem comuns ao Salnês ou Minas Gerais. Só alguns exemplos desta universalidade: arroiar, colo, jeito, enxebre (oh!), minhoca, orvalho, palerma, parvo, sapo-concho, trapalhada… A mesma universalidade tem muitas voltas, por vezes com pequenas variantes, como entre as vozes galega «ledícia» ou «rosmar» e as portuguesas «ledice» ou «rosnar», ou ainda a conexão atlântica entre o galego «bisbar» (falar em voz baixa) e o brasileiro «bisbilho» (suave murmúrio da água).

Utilitários

Por último, e não menos importante, o argumento estrela e polémico onde os houver. O galego(-português) é língua oficial em dez países e língua inicial ou secundária de mais de 250 milhões de pessoas em todo o mundo. Através do português, as galegas e galegos temos acesso a uma poderosa ferramenta de comunicação para os âmbitos cultural ou dos negócios —entre outros—, bem como bens e serviços para o dia a dia: livros, filmes, séries, software, cursos em linha… Se existe em castelhano, provavelmente exista em português, e muitas vezes com custo zero.

O argumento é polémico, porque o português é uma língua internacional devido a um passado colonial. Mas tampouco o galego surgiu do nada, surgiu porque houvo um império, o romano, que invadiu um território e impujo a sua língua, o latim. Portanto, poderemos repudiar a maneira em que determinadas línguas —inclusive a nossa— se tornárom internacionais, mas enquanto não mude a realidade, o argumento está aí.

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