Algumas certezas das eleições galegas 2020

As eleições galegas dérom uns resultados tão inesperados quanto contundentes. Inesperados, porque só o inquérito a pé de urna contratado pola TVG estivo bastante perto do resultado final, se bem com uma margem de erro notável (até três assentos). Não adivinhou os resultados finais, mas sim as grandes tendências: PP primeira força de maneira clara, BNG segunda força e a bastante distância da terceira, o PSOE, e um esfarelamento das opções de Galicia en Común.

Bem é certo que o inquérito que a TVG contratou à empresa GfK tinha uma vantangem sobre outras sondagens, e é que se realizou a pé de urna, com os votos já emitidos. Mas nem por isso —ou talvez por isso— os resultados deixárom de ser surpreendentes:

Em resumo, só até o dia mesmo das eleições havia alguma possibilidade de ver um BNG como segunda força (TVG e Sondaxe), e todos os trabalhos demoscópicos confirmavam que GeC teria presença no Parlamento da Galiza, mesmo com possibilidades de um grupo próprio (para o qual precisaria um mínimo de cinco assentos).

Resultados

Algumas certezas

Os resultados, de contundentes que são, deixam às claras algumas certezas dificilmente contestáveis.

  • O censo nestas eleições foi menor ao de quatro anos antes (2,23 milhões frente a 2,7), mas a participação aumentou cinco pontos, de 53,63 % para 58,88 %.
  • O Partido Popular/Alberto Núñez Feijóo ganhou as eleições mais uma vez por maioria absoluta, e vão quatro já.
  • Não apenas isso: o PP incrementou ligeiramente a sua percentagem de apoio. Apesar da diminuição no censo e de obter 56.968 votos menos, a adesão ao PP incrementou-se de 47,56 para 47,98%. Isto é, o PP não acusou eleitoralmente desgaste nenhum nestes quatro anos.
  • O PP fijo uma campanha em que o seu candidato —que voltou a ocultar as siglas do partido— não deu a vitória por feita em nenhum momento e usou todos os mecanimos, legais, alegais e ilegais para se aferrar ao poder. Desde convénios milionários com os meios de comunicação às portas das eleições, a uma manipulação descarada da TVG (que mesmo motivou as críticas da Junta Eleitoral) ou a realização de anúncios e promessas desde a sua posição como presidente em funções, algo proibido pola normativa eleitoral.
  • O PP pediu durante toda a campanha os votos da direita liberal (Cs) e da extrema-direita (Vox) para garantir um governo estável. De facto, chegou a pedir «el apoyo de los ciento ochenta mil gallegos que en las últimas generales dieron su voto a otras opciones» [citação não literal, mas quase], em clara referência aos 178.405 votantes que somárom Vox e Cs na repetição das gerais de novembro de 2019.
  • O BNG consuma a trajetória ascendente que já constatei na minha ultima análise eleitoral e bate o seu próprio teito histórico, chegando a 19 deputados e deputadas (com o Beiras, em 1997, lograra 18).
  • Ana Pontón confirma-se como a chefa da oposição galega e vê compensado o magnífico trabalho de quatro anos, dela e da sua incansável equipa.
  • O BNG realizou uma campanha com ar fresco, muito ativismo social e a pé dos principais conflitos, combinado com um ótimo desempenho nas redes sociais. Para além disso, também produziu diversos materiais audiovisuais e adaptados também para o público e convenções das redes sociais. Sem dúvida, o BNG tirou boa nota da sua grande matéria pendente, que eram a comunicação e as redes.
  • O PSOE de Gonzalo Caballero decepcionou e só mantém os também decepcionantes resultados obtidos quatro anos antes por ‘Xocas’ Leiceaga. Sobre o papel, ganhou um escano, mas em função do voto CERA poderia acabar nas mãos do PP, que subiria a 42. A incerteza continua neste ponto.
  • O PSOE, como em 2016, vê-se movido ao terceiro lugar no tabuleiro político. Naquela altura fora a extinta En Marea a que lograra esse posto, com 14 assentos (os mesmos que os psocialistas) e um feixe de votos mai (+16.866). A decomposição do espaço dito rupturista desde finais de 2018 acabou dando-lhe efemeramente ao PSOE o segundo lugar no Parlamento da Galiza. Sem dúvida, não ser segunda força é um fracasso para Gonzalo Caballero e ativará o eterno cainismo no psocialismo galego.
  • Galicia en Común-Anova Mareas (Gec) e seu cabeça de lista, Antón ‘Tone’ Gómez-Reino, pagam o pato do estourido interno do rupturismo e são, sem dúvida, tanto a grande surpresa como o grande fracasso da noite eleitoral. Ninguém apostava um peso por um bom resultado da coligação, mas ninguém —exceto alguém demasiado ousado— vaticinaria que ficassem fora do Paço do Hórreo depois dos resultados de 2016 e depois de formarem parte do Governo do Estado —com uma ministra, nada menos.
  • A coligação GeC viu-se prejudicada nos tempos eleitorais a não ser considerada a sucessora legal do partido e grupo parlamentar En Marea que em 2016 fora a segunda força. Essa honra recebeu-na a Marea Galeguista (da qual já falarei), polo que GeC tivo o tratamento de uma força extraparlamentar, o mesmo que Vox e Cs.
  • Contra GeC também jogou a confusão, a qual estava tanto na sua origem, como no nome da coligação ou nos seus símbolos. Em resumo: o difícil que é fazer pactos no meio de tantos egos, tantos interesses e tantos jogos de tronos. O nome oficial da coligação, conforme o escrito registado na Junta Eleitoral foi Galicia en Común-Anova Mareas. Do nome fôrom excluídas tanto Podemos como Esquerda Unida, forças integradas estatalmente em Unidas Podemos, que tem peso relevante no Conselho de Ministros e Ministras. Estes partidos aparecem, porém, no logótipo, uma mixórdia de imagens, por riba com duas versões diferentes apresentadas perante a Junta Eleitoral.
  • Marea Galeguista (En Marea + Compromiso por Galicia + Partido Galeguista) e Franciso ‘Pancho Casal’, apesar de receberem tratamento de segunda força no debate e na campanha eleitoral, lográrom uns resultados ridículos: oitavo lugar, só 2863 votos, justamente entre o PACMA (6055) e o projeto político do ex-psocialista ‘Pachi’ Vázquez (Espazo Común, coligado com Recortes Cero, Os Verdes e Municipalistas). Não precisa mais comentário.

Algumas conclusões

  • Ratifica-se a condição do PP como o partido mais transversal do tabuleiro político, capaz de chegar tanto a um votante de um galeguismo morno, como a um fascista consumado, de desencantados do PSOE a votantes liberais.
  • Existe uma altíssima percentagem de votantes de esquerdas, mais de 200.000, que não casam com ninguém e a qualquer hora podem mudar a sua preferência partidária. Uma boa candidatura e um bom programa, junto com o momento histórico, podem fazer que se inclinem mais polo eixo nacional ou polo eixo da esquerda, isto é, que apostem no BNG ou por outras propostas. Desta vez foi o BNG o triunfador nessa equação, logrando 310.137 votos em 2020, melhorando substancialmente os 271.418 de En Marea em 2016.
  • En Marea lograra uns resultados históricos em 2016 ao recolher o voto desencantado com o BNG e ao conseguir integrar numa mesma aliança o nacionalismo galego (representado por Anova) e a esquerda espanhola de vocação federal (Podemos e Esquerda Unida). As liortas internas, a decomposição do projeto e a orientação de Galicia en Común cara a um projeto cada vez mais estatal/federal acabárom alastrando as possibilidades a partir de uma óptica nacional galega.
  • A implantação territorial e a capilaridade social representárom para o BNG um plus de resistência quando lhe vinhérom pior dadas. Aguentou (com precariedade económica e de recursos) durante uns anos duros e, graças a essa base, conseguiu remontar o projeto. A sua contra-parte rupturista, porém, não conseguiu nos últimos anos a presença territorial firme que pretendia conseguir. Porque, reconheçamo-lo, um círculo de simpatizantes/inscritos não representa a mesma coesão e adesão ao projeto que uma assembleia de militantes que pagam as suas quotas cada mês. Talvez caiam na conta demasiado tarde?
  • O BNG, com mais éxito que Marea Galeguista, soubo explicar melhor as dificuldades para dar resposta aos problemas da Galiza com as mãos atadas respeito de Madrid, posição reforçada polos constantes incumprimentos ou inconcreções do Governo espanhol, que também servírom de munição para o PP.
  • O PSOE, no meio desse fogo, não conseguiu construir um discurso crível. Incapaz de fazer promessas que não fossem apoiadas por Madrid e abandonado à sua sorte polo aparato estatal do partido, Gonzalo Caballero fijo uma campanha digna, mas pouco esperançadora. Não logrou os objetivos, mas não tinha apoios. A estranha avaria do avião de Pedro Sánchez, que o impediu de estar no encerramento da campanha psocialista, bem poderia significar que o Sánchez queria evitar uma foto perdedora que pudesse erosionar a sua credibilidade.
  • Ao tempo, o Sánchez mantém o Feijóo mais um tempo na Galiza (já veremos se quatro anos ou menos) e coloca uma pataca quente no telhado de Pablo Casado, líder estatal, a quem se lhe juntárom no mesmo dia o triunfo de um rival interno e o fracasso sem paliativos das suas apostas no País Basco.
  • Finalizo com um apontamento demoscópico. A base eleitoral do BNG fôrom, como nos melhores tempos, o voto jovem e urbano, radiografia magistralmente recolhida polo diário Praza Pública. A do PP, o avelhentado rural galego, tradicionalmente o celeiro de votos dos conservadores. Cada uma das duas opções, antagónicas, foi a que melhor chegou ao seu público alvo.

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