«Hai que ver-se mais!». Foi-se-nos Esteban Yáñez, @Snob Megalove

O Estevinho na manifestação nacional pola língua do 17 de Maio de 2013, em que formou parte do bloco da AGAL (Foto: madeiradeuz.org)

Uma nova perda abala os nossos corações. Foi-se-nos o miúdo televisivo das bochechas redondas, o senhor —sempre um senhor, como corresponderia a um Esteban Carlos— das patilhas estratosféricas, o homem das brilhantes e coloridas camisas, o erudito dos saberes mais fríquis, o divulgador gastronómico mais punk, a metade dos Megaloves, a metade feita carne —frágil— do Blogomilho/Galituíter, a deliciosa amálgama de amizades e cosmovisões do mais variado, o perene sorriso tranquilo, o extrovertido militante em modesto segundo plano… Foi-se-nos um bom e generoso, alguém cuja fotografia deverá aparecer quando bom-e-generoso entrar com merecimento nos dicionários ilustrados.

«Eu conhecim Esteban estando…», «eu conhecim Esteban um dia…», «eu conhecim Esteban no Festival de…». Eu não lembro quando conhecim Esteban, mas se tu estavas ali, agraderei-che um mundo que mo relembres*!

* Atualização 23 de abril de 2020

Depois de muitos esforços infrutuosos, um comentário casual do amigo Ernesto Vásquez Souza ativou-me uma lembrança. Peguei no meu arquivo fotográfico e… Apareceu! Acho que esta foi a primeira vez que o Esteban mais eu nos vimos. Foi no roteiro «O que as pedras de Compostela nos podem contar», dirigido polo próprio Ernesto na sequência dos atos do 5.º aniversário do Centro Social ‘O Pichel’, em finais de janeiro de 2009. Mais fotografias do evento na minha (desatualizada) conta no Flickr.

Roteiro em Compostela dirigido por Ernesto Vásquez Souza, como parte dos atos para comemorar o 5.º aniversário do Centro Social ‘O Pichel’ (31 de janeiro de 2009) | Foto: madeiradeuz.org

O Esteban televisivo

A primeira vez que vim Esteban foi alguma tarde na década de noventa do século passado. Eu estaria na minha casa, provavelmente merendando, e ele apareceria no televisor como o perito em banda desenhada Arroz Hacker, o seu alter ego no maravilhoso Xabarín Club da TVG . Ou se quadra o vim antes, já nem sei, no papel do Pepinho da sucedida série Pratos Combinados, também emitida na televisão galega.

O Pepinho de Pratos Combinados, sempre a pedir uma doação para a ARSI (“Associação de Estudantes com Suspensos Injustos)
Um Esteban um bocadinho mais velho, já como o Arroz Hacker do Xabarín Club

Bastantes anos depois, talvez uma década, chegaria a aproximação virtual através da primeira versão da rede social Chuza!, em que já se fazia nomear @Snob, se não me engano. Já em pessoa, não lembro quando foi a primeira vez que nos vimos ou falámos, mas houvo de ser nalgum momento entre 2007 e 2010, em pleno apogeu da dita rede social.

Picheleiro até às cachas

Ainda que nascido em Ferrol em 1984, o senhor Esteban Carlos Yáñez Pazos era «picheleiro até às cachas», porque estava namorado da vida compostelana e fazia namorar dela qualquer pessoa. O seu rosto familiar era, ao mesmo tempo, um sinal de qualidade: sabias que um evento era bom se o Esteban andava por ali. As —afamadas— Festas da Rua de Baixo, as Festas de São Pedro, os concertos no Centro Social ‘O Pichel’

Ali onde te visse, sempre che dava um agarimoso abraço, um abraço que te enchia, mas sem abafar, porque os homens grandes se dalgo sabem é de dar abraços. Neste caso uso grande aludindo à sua dimensão física, esse 1,85~1,87 metros de estatura e peso variável, de longos e amigáveis braços geneticamente desenhados para essa finalidade, com utilidade secundária para alcançar cervejas e segurar cómics e livros da mais variada temática.

Amigo de fazer amigos

Se falavas com o Esteban uma vez, ficavas sendo amigo seu para sempre. Amigo casual, amigo íntimo, amigo chegado, amigo local… Mas amigo. E tinha amigos e amigas às moreias, porque ele tinha uma virtude que quero destacar acima do resto: com o Esteban podias falar de qualquer cousa. E quando digo qualquer cousa é, literalmente, qualquer cousa. Quer fosse a música dos escravos haitianos, as isoglossas da língua catalã, o acervo da música tradicional galega, a concepção do tempo e do espaço segundo a mecânica quântica, os mitos pagãos na Europa central, as dinastias suevas na Galiza, a diferença entre ecchi e hentai, os melhores restaurantes de comida mexicana na Galiza… Assim fosses de ciências, de letras, de mecânica ou confeitaria, sempre teríeis tema de conversa.

No ano havia três momentos em que não faltava que nos comunicássemos por uma rede social ou outra. Ao redor de 24 de dezembro para enviar bons desejos no Natal —deixai-nos com as nossas contradições—, cada 26 de dezembro para comemorar o Santo Estêvão —dia da sua onomástica e do padroeiro da minha freguesia, Prevesos—, e uma outra já no verão, no fim de semana anterior ao São João, que é quando Prevesos realiza uma festa em honra do Santo Estêvão. Vários anos brincando um ou outro com irmos juntos para esse fim de semana festivo… e já não poderá ser!

A tradição anual de lhe festejar a onomástica

Militante das causas nobres

Como bem escreveu o comum amigo Ghanito na revista Luzes, o Esteban dizia sim a tudo: era a sua maneira de aproveitar a vida. Desde que o conhecim, isto foi sempre assim, mas acho que de maneira acentuada nos últimos anos. A sua atitude vital incluía dar o máximo naquilo que lhe desse satisfação, fosse manifestar-se no Dia do Orgulho Lusista e Reintegrata, dar uma festa surpresa a um amigo, descobrir novas experiências culinárias ou pôr-se a fazer uma revista.

As nossas facetas militantes —ambos os dous fomos membros da Gentalha do Pichel e éramos sócios da Associaçom Galega da Língua— figérom-nos coincidir num bom feixe de atos. O Esteban, sempre brincalhão, não duvidava um instante em somar esforço a quanta iniciativa lúdico-reivindicativa houver. Nos vídeos abaixo pode-mo-lo ver com a camisola NH/LH editada pola AGAL na primeira edição do Dia do Orgulho Lusista e Reintegrata (DdoOLeR), na celebração do Dia de São Martinho (de Dume) ou dando algumas dicas linguísticas para o consultório em linha da AGAL. E muito mais no seu canal —e doravante templo de peregrinagem— Snob Megalove.

Que jeito de ficar!

O Esteban, o Snob Megalove, o Stevi, o Gatourizo, o Estevinho deixou-nos ontem, um trágico 21 de abril que conseguiu que até dos olhos mais secos dessem abrolhado báguas. A sua frágil saúde viu-se agravada polo bicho hoje nos consome um pouco a todos e a todas, o coronavírus SARS-CoV-2. As excecionais circunstâncias impedírom-nos despedir-nos dele como mereceria, mas também evitou que centos de pessoas de toda a Galiza e parte do universo nos congregássemos no já superlotado Hospital Clínico compostelano para arroupá-lo com uma mínima porção do carinho que nos deu.

Quando passe toda esta merda —que passará—, quando remate este inferno, teremos que ver-nos mais, não renunciar a essa última cerveja de despedida, dar-nos mais um abraço, superar a preguiça e aproveitar cada instante. E teremos que dar-lhe ao

Parafraseando um verso publicado ontem polo amigo Iván,

FOI-SE-NOS. MAS QUE JEITO DE FICAR!

Uma das derradeiras fotografias publicadas na sua conta de Twitter, o passado 14 de janeiro | Foto: Twitter @Snob

(Post scriptum)

Também escrevem sobre ele, e melhor do que eu:

Alguns obituários na imprensa:

%d bloggers like this: