Galego-utente / Galego-consciente

Poucas cousas sofrem mais o darwinismo social do que as línguas e, dentro delas, as palavras. Conforme o passar do tempo, a riqueza da língua tende a diminuir, especialmente desde que existir um código culto estendido. A generalização do ensino público e os meios de comunicação contribuem para isto, facilitando a uniformização da língua, a perda de variantes lexicais e reforçando a coesão interna. Mas, ao contrário que a seleção natural, no caso galego há pouco de natural e muito de condicional.

Realidades que desaparecem, palavras que morrem

Algumas palavras, ou alguns usos das palavras, desaparecem porque o fai a realidade que designavam. O fim de alguns ofícios deu cabo de inúmeros termos que hoje quase só resistem em dicionários.

Uma destas palavras é desentertenhar (que ainda recebe os nomes desentretenhar, desentertinhar ou desentretinhar), que fai referência ao labor de separar a gordura (entretinho) da tripa dos porcos. Era, pois, um dos trabalhos básicos depois da matança dos porcos, porque permitia o aproveitamento ótimo das tripas para depois fazer os chouriços.

Outra é espilir / espelir, nas definições que fazem referência a labores como separar a palha boa da má. Quando eu me dedicava à agricultura usava muito espilir, concretamente, «espilir a erva». Quando a erva é descarregada, forma um montículo grande. Espilir a erva é desfazer esse montículo e deixá-la estendida com uma altura reduzida. Isto ralentiza a sua fermentação e impede que sente mal ao gado. Se alguma vez tiverdes ocasião, metei uma mão dentro de um monte de erva que levar algumas horas apanhada; comprovareis que o seu interior é… quente! Daí a importância de a espilir.

Nesse tipo de casos, o darwinismo social funciona mimético como a seleção natural enunciada polo grande cientista inglês: é natural que ao desaparecer a realidade designada, também o faga a palavra.

Velhas palavras para novas realidades

Noutros casos, porém, as palavras adequam-se às novas realidades. Alguns casos paradigmáticos são grade, orelha ou rodízio.

Grade
Provavelmente, a maioria das pessoas da Galiza associarão a palavra grade com um «instrumento de lavoura a modo de reixa ou caixilho com travessas de ferro ou madeira paralelas, providas de pugas para esterroar e aplainar a terra depois de lavrada». Durante séculos, este foi o significado principal, com ligeiras incorporações de matizes em vários âmbitos industriais (que o dicionário da RAG nem sequer recolhe) para se referir a utensílios com forma de grelha. Precisamente, o termo grade é utilizado na Lusofonia para quase qualquer realidade que lembrar a uma grelha, a um cruzamento de linhas verticais e horizontais. É o caso, na ofimática, das celas de uma folha de cálculo: também isso é uma grade!

Orelha
Além de um apêndice do corpo de alguns animais e de um saboroso doce, umha orelha é também a «dobra na capa de um livro». Mais uma vez, no galego ILG-RAG renunciou-se a uma solução de continuidade lusófona e optou-se por lapela, decalque do castelhano solapa.

Rodízio
O dicionário da Real Academia Galega define rodicio [sic] apenas como a «peza do muíño semellante a unha nora, que xira ao recibir a auga da cal, pondo en movemento a moa». Nem sequer recolhe outras aceções, como uma peça do tear ou uma peça de artilharia, nem muito menos o significado que hoje em dia é mais popular (e foi já exportado a outras línguas): um sistema de serviço na restauração onde, por um preço fixo, são apresentados rotativamente diversos pratos e especialidades à clientela.

Os três exemplos mencionados são apenas alguns casos de sucesso, mas há muitos mais.

‘Novas’ palavras para novas realidades

Infelizmente, na Galiza são abundantíssimos os casos de fracasso, em que um termo de uso corrente é incapaz de se adaptar às novas realidades ou usos, sendo inexoravelmente substituído por um vocábulo da língua castelhana. Como dizia no começo, nada de natural há aqui, mas condicionado pola abafante pressão do castelhano na nossa sociedade.

Na minha comarca, a Terra Chã, pudem observar bem de perto esta substituição imparável. Um bom exemplo é o de rolo, usado sem problemas para referir um grande cilindro metálico que, ligado ao trator, é utilizado para aplainar a terra. Também, a um método para armazenar a erva seca, compactando-a em forma de rolos, os quais viérom nos últimos anos a substituir as pacas de erva (retangulares). Porém, para se referir ao papel higiénico ou o papel de cozinha, o que costuma sair das bocas é… *rolho.

De maneira análoga, quando preparamos as patacas para a semente, cortamo-las em vários nacos, dese que em cada um deles haja ao menos um olho (um germolo). Esta ação é chamada de «relar as patacas». Também «relamos patacas» quando as cortamos para cozinhar. Porém, a gente compra nos supermercados pão ou queijo… *ralhado.

O mesmo acontece com centos de inúmeras realidades, como os ovos que põem as nossas galinhas, mas a caixas de *huevos comprados no supermercado (mas se é a mesma cousa!). Por não falarmos do arquiconhecido caso das tigelas (ou tijolas) de ferro de toda a vida, subtituídas polas moderníssimas *sarténs ou *sartenes com o interior de teflão.

Galego-consciente

O galego é a minha língua familiar de sempre, o que me permitiu nos últimos anos poder estudar com material de primeira mão alguns dos fenómenos de substituição linguística descritos. Fum, durante anos, um galego-utente, mas só nos últimos um galego-consciente.

Precisamente, a aquisição da galego-consciência levou-me para recuperar com firmeza termos como tigela (|ɛ|), o empregue na minha infância, por mais que nem meus irmãos o usem já. Ou colocar na casa rolos de papel ou comprar queijo relado, entre muitas outras. E mesmo a organizar trabalhos em grades ofimáticas.

Muita galego-consciência para todas e para todos!

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