Não digas Samaim, diz «Defuntos» ou «Magusto»

Não digas Samaim, diz «Defuntos» ou «Magusto»

O termo Samaim procede do irlandês Samhain, língua em que se pronuncia aproximadamente sáuin. No calendário celta, a festa do Samhain é uma marca entre estações e simboliza o começo da parte mais escura e fria do ano. Ou seja, a chegada do outono. Desta celebração deriva uma outra, mundialmente conhecida: o Halloween, do inglês All Hallows Evening (Noite de Todos os Santos).

Como em muitos outros casos, o cristianismo primigénio pegou em muitas divindades, ritos ou festas pagãs e adaptou-nas. Desta maneira, eliminava resistências da população indígena e facilitava a introdução da Palavra Divina. E se para isso havia que mudar a 25 de dezembro o nascimento do Jesus Cristo, pois movia-se. E se havia que fazer uma festa acima do Samhain, pois também.

A festa de Todos os Santos (1 de novembro) e a dos Fiéis Defundos (2 de novembro), junto com o São Martinho (11 de novembro), fôrom e são comemoradas de maneira litúrgica mas, sobretudo, não litúrgica.

Defuntos e Magusto, ambas as duas no senso mais amplo, são os festejos galegos que compreendem a essência do Samhain celta. O Magusto (mais bem Os Magustos) é uma celebração plural que tradicionalmente se realiza a 1 de novembro, que consiste em apanhar e assar castanhas, geralmente de maneira comunal, tudo amenizado com boa música e regado com primeiro vinho. Defuntos compreende também uma série de costumes e ritos que não necessariamente se realizam só no dia 2 de novembro, mas também em datas prévias.

Precisamos um nome estrangeiro, mal adaptado na ortografia e na fonética, para nos referirmos aos festejos próprios com que na Galiza celebramos o outono? Eu acho que não.

Cuido que a intenção era ótima quando Rafael López Loureiro, mestre da escola de Cedeira, promoveu esta festividade desde a associação Chirlateira (primeiro) e Amigos do Samaín (depois), lá na década de noventa do século passado. Porém, a realidade é que hoje, quase trinta anos depois, a maior parte das manifestações que levam o nome de Samaín/Samaim não passam de um Halloween com outro nome. Dos disfarces ao pedir polas portas ao berto de «truque ou trato?» (trick or treat?), das decorações fantasmagóricas à mercadotecnia. É mais uma amostra de invasão cultural estado-unidense. Só admira que, amigo como é o povo galego do bom comer, ainda não se celebre o Dia de Ação de Graças (quarta quinta-feira de novembro, este ano dia 28)!!

Vá por diante que se se trata de uma festa de comer, passá-lo bem e disfarçar-se, eu gosto. Mas chamemo-lo polo seu nome, Halloween, não Samaim. Como dizem na Espanha, «no nos hagamos trampas al solitario».

Ao meu ver, a facilidade de penetração do Halloween na sociedade galega está diretamente ligado à desconexão com a morte. Vivemos de costas para a morte, como certeiramente concluem no documentário Em companhia da morte ou na palestra que Rafael Quintía deu na Universidade de Deusto em 2014. E isso explica muitas cousas.

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