Um «adeus» para Xosé Salgado Agrelo, ‘Xosé da Flor’

Com só 31 anos, o passado dia 15 de novembro deixou-nos Xosé Anxo Salgado Agrelo, mais conhecido como ‘Xosé Salgado’ ou ‘Xosé da Flor’. Uma perda irreparável, como poucas vezes me vereis afirmar.

Quase vizinhos

Estou com dúvidas se o Xosé mais eu chegamos a falar ao vivo alguma vez. Fôrom inúmeras as interações nas redes sociais, sim, mas o encontro e conversa cara a cara acho que não o tivemos nunca. E é estranho.

É estranho, porque o Xosé mais eu, poderia-se dizer, conhecíamo-nos de sempre. Ou poderíamo-nos conhecer de sempre; já não o saberemos.

Café-bar La Flor, em Meira

Porque o ‘Xosé da Flor’ recebia a alcunha do bar que durante muitos anos levárom seus pais em Meira, La Flor. Seus pais eram familiares de uns bons amigos de meu pai, que todos os anos nos convidavam a jantar polas festas de Meira. Durante anos, jamais falhamos ao convite, portanto o mais provável é que alguma vez tivéssemos coincidido lá na nossa infância, sentados à mesma mesa.

Se isso aconteceu ou não, já dixem, não o saberemos. Por essa razão, acho que conhecim Xosé da Flor já na Faculdade, estudando eu Jornalismo e ele Comunicação Audiovisual.

Quando eu conhecim Xosé

Da primeira vez que reparei nele foi polo nome. Ali junto de Esther, a responsável da reprografia, madrinha e conselheira de gerações de comunicadores. Na parede à direita ela tinha sempre uma folha com as encomendas de fotocópias; procurando eu por umas, reparei num nome. «Pepe da Flor… Mas que apelido lindo. E esquisito», devim pensar, ao tempo que me assaltava a dúvida se realmente era um apelido ou uma alcunha.

Não demorei demasiado tempo em saber quem era o tal Pepe da Flor, também por ali na reprografia ou perto. Que pintas! Sem dúvida, respondia ao estereótipo que os de Jornalismo tínhamos respeito dos recém-chegados de Comunicação Audiovisual, a nova titulação criada pouco tempo atrás, aqueles novos e estranhos estudantes com que devíamos partilhar a nossa Faculdade.

O Xosé/Pepe da Flor tinha umas boas pintas, sim, similares às da camisola que veste na foto do começo deste artigo —aliás, caricatura sua—. Cabelo penteado com cortininha por diante, um pouco riçado por trás e óculos arredondados, tudo somado com um ar entre despreocupado e despistado. «Este é de Comunicação Audiovisual», concluim pouco antes de confirmar que era o tal Pepe da Flor.

Na nossa etapa universitária não lembro que trocássemos palavras ou saúdos, porque tampouco sabia quem realmente ele era, o familiar dos amigos de meu pai e primo dos meus amigos.

Quando o soubem —acho que através de meu pai—, já estávamos fora da Universidade. Através das redes fomos tomando contacto e fazendo-nos permanentemente a promessa de coincidirmos polas festas de Meira. Várias vezes estivemos perto, mas não o conseguimos: um ano eu ia o 15, ele o 16; doutro ele ia o 15, eu o 16; dum ano eu ia, ele não podia; do outro eu não podia, ele sim… Assim foi passando o tempo, quase sem nos decatarmos, e a promessa não se acabou de concretizar. Uma espinha que sempre terei aí bem cravada.

E assim sempre… Não havia maneira!

Uma perda irreparável

Dizia no começo que era uma perda irreparável. Porque poucas vezes alguém tão novo tinha feito tanto. Poucas vezes alguém tão novo podia ser tão diverso, tão querido, tão imprescindível.

Algumas necrológicas referiam-se ao Xosé como «jornalista», mas nem o era nem o queria ser. Ele era licenciado em Comunicação Audiovisual e, ainda que nunca exerceu totalmente nesse âmbito, também aí deixou pegada, como em tantos outros campos.

Deixou pegada nos desportos, principalmente como jogador do Meira FC e da SD Pastoricense, mas também na bilharda. Deixou pegada na cultura, como presidente da associação M de Meira, entidade imprescindível para a dinamização social e cultural da vila. Deixou pegada na política, pois foi várias vezes nas listas eleitorais do BNG, partido do qual era o responsável local nos últimos tempos.

Profissionalmente dedicou-se à comunicação, mas não como realizador ou jornalista, senão como gestor de redes ou relações públicas para diferentes entidades, tais como um conhecido restaurante da comarca compostelana (O Fogar do Santiso) ou, mais recentemente, uma conhecida empresa de fabricação de bolachas (Da Veiga).

Ora, se dalgo gostava era dos monólogos. Com um humor muito peculiar em que sempre havia certo pouso de tristura suportável. Tenho para mim que eram ecos da perda de sua mãe quando ele ainda era adolescente, uma figura que recorrentemente lembrava nas suas publicações nas redes sociais.

Um monólogo do Xosé da Flor

Como monologuista assumia a identidade de Xosé da Flor e, se bons eram os que fazia ao vivo —contam as crónicas—, eu diria que os que publicava nas redes eram ouro puro. Isso sim, concatenadas com o reconto de vacas (e seres humanos) cada vez que falava de um concelho galego. OcorrÊncias e reflexões genais que sempre che debuxavam no rosto um sorriso, como o permanente sorriso que ele tinha por duras que fossem as circunstâncias.

Porém, o audiovisual sempre estava aí, e nos últimos tempos havia um projeto em que tinha muitas esperanças postas, muito orgulho, muitas alegrias e esforço: Dhogs, um filme de Andrés Goteira em que ele aparece como um dos corretores do roteiro, ainda que fijo mais cousas das que oficialmente constarão nos papéis, porque ele não podia ser capaz de fazer só uma cousa.

Poderia dizer muito mais, mas nem com isso conseguiria fazer justiça a este bom e generoso que nos deixou. Adeus, Xosé. E pumba prá cama!

Nota:

Este artigo é uma reconstrução de memória do publicado originalmente neste blogue a 23 de novembro de 2017. Por desgraça, perdim o texto original e voltei-no a escrever a 14 de outubro de 2019 tirando de memória e de sentimentos. Se alguém conservar o texto original, mesmo que seja fragmentariamente, agradecer-lho-ei.

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