De lumes e de língua ou de como misturar alhos com bugalhos

Nesta semana, com certeza num dos verãos dos mais difíceis para o País e diante de uma das mais grandes catástrofes ambientais, a Galiza arde «com lume florestal», que diziam «Os Resentidos» faz mais de uma década. E enquanto isto acontece, dalguns sectores políticos e mediáticos (nem é preciso nomeá-los, são «os de sempre») acusam as políticas linguísticas de discriminarem por razão de idioma à hora de contratar as brigadas contra-incêndios.

Por colocar um exemplo, o jornal espanholista «El Mundo», na primeira capa que dedicou aos incêndios que assolam Galiza, intitulava assim: «La Xunta exige saber gallego para trabajar en la lucha contra incendios» (8 de Agosto). Ainda, dentro da publicação, figurava um furibundo editorial contra a política da Junta.

Num alarde de ignorância e de intoxicação mediática, o diário que dirige Pedro J. Ramírez assegurava que as actuações do executivo galego estiveram guiadas pola «discriminación lingüística y el sectarismo», em referência a que a Junta aprovou em Maio as normas que regulam a contratação de brigadas contra-incêndios nas quais se exige acreditar domínio da língua do país para trabalhar para o Governo autonómico.

Ignoram os editorialistas d’«El Mundo» que faz mais de vinte anos que existe este requisito, que não é algo que tenha inventado Touriño, como eles insinuam. Claro que, se fôssemos exigentes, cumpriria dizer que não se trata de «requisito», mas de «mérito», como bem apontam do Xornal.com.

Noutros meios «independentes», como «Libertad Digital», continuam a intoxicação manipulando palavras de responsáveis da Administração galega. Alguns tinham afirmado que certos incêndios podiam ter sido provocados por brigadistas que afinal não foram contratados. Pois bem, desde o panfleto de Federico Jiménez Losantos dão por feito que todos os brigadistas não contratados foram excluídos por não saberem galego, e intitulam uma das suas notícias assegurando que o executivo galego chama «terroristas» aos brigadistas castelhano-falantes. O que terão a ver os alhos com os bugalhos? Kafkiano (1.1)!

Entre os extremos representados por «El Mundo» (direita espanholista) e «Liberdad Digital» (ultradireita espanholista) está o «ABC», onde em 9 de Agosto vinha publicada a carta de um leitor, de presumível origem galega, denunciando de Madrid a «absurda expansión del gallego en todos los ámbitos, en detrimento del castellano». O «informado» leitor continua a sua missiva com a certeza de que alguns brigadistas «fueron retirados por este creciente totalitarismo lingüístico que convierte en cenizas los derechos de determinados sectores de la población española». Kafkiano (1.2)!

Como bem explicam desde a Pensa•Galiza, «é de pura lógica exigir saber galego para trabalhar na Galiza» (ao menos se quem paga é o Governo galego). Para trabalhar a conto do Governo espanhol também se exige acreditar domínio do castelhano. Ainda, no plano prático, é imprenscindível saber galego para perceber as instruções recebidas (inúmeras) em situações de tanta tensão como são a luita contra os incêndios.

Demagogia barata

Para a Mesa pola Normalización Lingüística, estas críticas (que surgiram após as denúncias de um destacado político galego), «é indecente e carronheiro misturar os requisitos de conhecimento de galego para o pessoal fixo com a situação de emergência nacional provocada polo terrorismo ambiental».

O presidente desta organização, Carlos Callón, foi para lá e assegurou que, estando o país na situação de emergência que vive, «causa vergonha que se possa sair com este tipo de manifestações». Da Mesa parecem partilhar os postulados da Pensa•Galiza quando afirmam que «apesar das péssimas gestões de Fraga e de Feijoo, o meio rural continua a falar maioritariamente em galego», e por isso se requer o conhecimento do galego «numas circunstâncias de excepção (…), que incluem uma forte relação com os habitantes e com o meio rural».

A organização que preside Carlos Callón afunda na ferida e ironiza «qual será o próximo ponto da sua demagogia? Criticar que se peçam certificados de estudos? Porque, seguindo o seu razoamento, para apagar lumes não é necessário saber fazer equações…». Subscrevo estas palavras e tenho a certeza de que além de meios contra-incêndios, precisamos meios (galegos e em galego) contra-a-indecência.

* _ ^ * _ ^ * _ * b i b i – b i b i – b i b i * _ ^ * _ ^ * _ *
(SMS recebida)

Operários qdarm fora x ñ saber galego como di a lei. Mas kntos qdaram fora x ñ serem do PP em 15 anos d gvrno?
Rula-o: culpam provs d glego ds ncndios!

[Recebida em : 08/08/2006 às 23:30]

Imagem satélite da Península Ibérica a 8 de Agosto de 2006 [NASA]
__________

* Artigo publicado por Gerardo Uz originalmente no Portal Galego da Língua a 10 de agosto de 2006. Eis outros artigos nos mesmos dias.

www.000webhost.com