A prodigiosa memória (seletiva) de Xosé Manuel Beiras

Xosé Manuel Beiras está zangado, profundamente zangado com alguns elementos dentro do seu próprio projeto político, En Marea. E não lhe faltam motivos, abofé. O último episódio tem a ver com o esperpêntico surgimento, em Ferrol, de duas marés municipalistas —Marea de Ferrol e Actúa Ferrol— que surgem como cissões-daquela-maneira de Ferrol en Común, até a altura a maré de referência na cidade. E não poupou o veterano galeguista em munição verbal para se referir aos díscolos, não…

Beiras, sobre os partidos escindidos de Ferrol en Común: “Se son analfabetos, o que teñen que facer é ir á escola”
O histórico político cualifica de “fraude” as escisións das mareas que xurdiron en Ferrol e di: “Non pode haber varias alternativas de unidade popular”.

Beiras em estado puro, jaora!

Se eu fosse o Beiras, mesmo se fosse um qualquer, também eu estaria zangado. Criar partidos ou micropartidos unicamente por afã de vingança ou como reação a desencontros —como pouco— que poderíamos qualificar de pueris é algo que tira do sério o mais calmo. E O Beiras não é dos mais calmos, precisamente. Por algo é O Beiras.

Uma outra questão que cabreou veterano galeguista foi a «deslealdade» —em opinião de muitos— que significou a presença de destacados membros da coordenadora de En Marea no ato de apresentação de uma destas cissões, Marea de Ferrol. Sem conhecer em detalhe o acontecido, abofé que muito leal não parece, não.

Em definitiva, Xosé Manuel Beiras, O Beiras, está até os tomates dos personalismos, das pessoas que decidem antepor o individual ao projeto comum. E eu acho que o seu cabreio está justificado e apoio-o nisso.

Mas, oh, caramba! O caso é que O Beiras não é a voz mais autorizada para falar em «unidade», O Beiras não é o mais indicado para acusar ninguém de desleal —desconheço se usou a palavra literal, mas pouca diferença faz— quando a sua trajetória nos últimos anos não salientou, precisamente, por uma defesa firme e coerente da unidade.

É certo que O Beiras aglutinou, sim, elementos até a altura tão antagónicos como o nacionalismo independentista galego e o comunismo jacobino espanhol… Para que o acabassem defenestrando de uma maneira bem desselegante, também, quando o achárom amortizado ao cabo de quatro anos.

Mas também não podemos esquecer que foi O Beiras uma pessoa que se afirmou como garante da unidade do BNG na funesta Assembleia Nacional que tivo lugar no mercado gandeiro de Âmio a 28 e 29 de janeiro de 2012. Eu estava ali e ouvim-no com as minhas orelhas, ninguém mo contou. E em menos de duas semanas, a 12 de fevereiro, o micropartido do Beiras, o Encontro Irmandiño, decidia desligar-se do BNG num processo fraudulento(*), com O Beiras num papel estelar e necessário para concretizar essa rutura.

Portanto, Xosé Manuel Beiras, solidarizo-me honestamente com a tua indignação. E igual que tu apelas aos teus cabelos brancos para pontificares que «já tenho uma idade para dizer as cousas como são e não posso dizer as cousas com respeito para todo o mundo», também eu apelo à minha auctoritas como antigo votante teu, a quem prometeste defender a unidade, para che dizer uma cousa: a idade justifica os problemas de memória, mas nem sempre justifica que a memória seja seletiva.

 

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(*) Fraude, só esse nome merece. A decisão de desligar o EI do BNG foi adotada «por aclamação», isto é, não houvo votação formal. Circunstância até certo ponto lógica, pois «aclamárom» essa cissão pessoas que na altura nem sequer tinham militância no Encontro Irmandiño, bem que algumas acabariam formando parte do seu sucessor legal, Anova-Irmandade Nacionalista.

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