Um «adeus» para Xosé Salgado Agrelo, ‘Xosé da Flor’

 

 

No passado 15 de novembro, uma brutal notícia percorreu Galiza inteira: falecia, com só 31 anos, Xosé Anxo Salgado Agrelo, mais conhecido como Xosé da Flor. Poucas vezes me tereis afirmando que uma perda é irreparável, menos ainda que o seja para todo o país. Esta é uma dessas raras ocasiões. O Xosé não era «famoso». O Xosé não era um rosto conhecido, ou polo menos não para o grande público. O Xosé não tinha uma longuíssima trajetória pública conhecida. Nada disso. Porém, centos de pessoas dos mais afastados pontos da Galiza chorárom (chorámos) a sua perda. Como é isso possível?

Nalgum obituário falam dele como «jornalista», mas nem o era nem tinha vocação de sê-lo. Ele frequentou a Faculdade de Ciências da Comunicação, sim, mas licenciou-se em Comunicação Audiovisual. Precisamente, formou parte daquela primeira promoção de estudantes dessa nova licenciatura que deu os primeiros passos no curso 2003-2004 na Universidade de Santiago de Compostela.

Depois de se licenciar (2007), realizou com êxito o mestrado em Gestão de recursos culturais e análises de políticas, também na USC. Co isto findou a sua etapa compostelana, de algo mais de seis anos. Depois trabalhou um par de anos em Abertal, uma empresa luguesa do setor TIC. Mais tarde, e durante quase três anos, foi o responsável de redes sociais e um dos rostos visíveis do Fogar do Santiso, emblemático restaurante do concelho de Teu, vizinho de Compostela. Este ano, em maio, começara a trabalhar como responsável de redes sociais para Da Veiga, uma empresa de Chantada dedicada à fabricação de bolachas marinheiras.

No meio desta trajetória profissional, a priori afastada dos eixos da sua formação académica, encontrámos colaborações no audiovisual, no desporto (aí temos a SD Pastoricense, futebol, ou a Tropa Ligeira, na bilharda), na política (nas eleições municipais de 2011 e 2015 foi nos primeiros postos da lista eleitoral do BNG, ainda que não saiu eleito)… E no mundo da cultura, sendo presidente da associação M de Meira, coletivo que dinamizou e ainda dinamiza a vida social e cultural desta pequena vila.

Ao longo da sua (infelizmente, breve) vida profissional e militante, o Xosé fijo amigas e amigos por todo o país. A sua simpatia e engenho eram cativantes. Generoso e trabalhador, contarão-se com os dedos de uma mão as pessoas capazes de falar mal del. Era uma pessoa boa, era uma boa pessoa. Era desses bons e generosos de que fala o Hino, com certeza.

Quando eu ‘conhecim’ Xosé (I)

Precisamente, um dia daquele já longínquo curso 2003-2004, estava eu a consultar o quadro de fotocópias da Lienciatura em Jornalismo na sala de reprografia, para ver quais devia recolher eu, e escuitei a Esther —anjo guardião de centenas de estudantes da Faculdade de Ciências da Comunicação e mais tarde doutros centros— explicar a uns jovens que tais ou quais fotocópias as deixara encarregadas Pepe da Flor. Eu, orelha aberta, dei uma olhada furtiva ao quadro das fotocópias e, com efeito, lá vim uma encomenda do tal Pepe da Flor para um grupo de Comunicação Audiovisual. «Da Flor? Mas que apelido esquisito; nunca tal ouvira. Ou será talvez uma alcunha?».

Dias ou semanas mais tarde, no mesmo local de fotocópias, cruzei com um jovem cuja aparência me chamou a atenção. «Esse tem pinta de ser de Comunicação Audiovisual». Entre os meus companheiros e companheiras de Jornalismo, a gente de Comunicação Audiovisual eram como raras avis. Esses forasteiros e forasteiras que ousavam colocar o pé nos nossos domínios —nós já estávamos no terceiro ano, numa licenciatura com mais de uma década de vida, e eles ainda começando— sempre fôrom vistos por nós com suspicácia, certo ponto de chança e comentários sobre o «modernos» que pareciam todas e todos (o que hoje poderíamos chamar de hipsters, muitas vezes com traças de mauricinhos e patricinhas). Pois o tipo parecia um «moderno», portanto devia ser de Audiovisual. E, com efeito, era. Por cima, resultou ser o tal Pepe da Flor.

Naquela época, o Xosé levava um penteado bastante esquisito, com raia a um lado, cabelo meio comprido e liso, mas mais bem riçado pola parte de trás. O pacote complementava-se com uns óculos também desses modernos (gafapasta, em espanhol) e um certo ar despistado. Não topei fotografias dessa etapa, mas, acreditai: o desenho que leva na camisola da fotografia do topo deste artigo não é por acaso 😉

Ecos de uma vida anterior

Não tenho já a certeza de quando soubem que o tal Pepe (ou Xosé) da Flor era Xosé Salgado Agrelo, mas provavelmente foi já comigo fora da Faculdade. Também não sou consciente de quando é que juntei todas as peças para me dar conta de quem ele era. De quem realmente era. Porque, de alguma maneira, eu conhecia o Xosé de antes. De uma vida anterior? Mais ou menos: da vida antes de Compostela, da vida nas comarcas da Terra Chã e de Meira.

Seus pais dirigírom durante anos uma conhecida cafetaria em Meira, o Café-Bar La Flor, da qual tomaria a alcunha. Escasos oito quilómetros separavam os lugares em que nos criámos. Seu pai é irmão de um amigo de longa data de meu pai, e todos os anos ia eu jantar com a família deles polas festas de Meira. Nesses encontros havia muita família do Xosé, dos seus primos e amigos deles, sobrinhos/as, afilhadas/os e demais. É possível que nalguma destas coincidíssemos a jantar juntos, mas sem nos conhecermos. Ou também pode ser que, por puro acaso, em mais de vinte anos nunca tivéssemos quadrado.

Um verdadeiro génio

Quem seguisse a frenética e ecléctica atividade do Xosé Salgado nas redes sociais, comprovaria que a sua vida, retransmitida em diferido polo ciberespaço, acontecia verdadeiramente no plano físico. Comidas com as amizades, festas, atos culturais, desportivos e políticos… Jaora que a sua perda nos abalou de norte a sul, de leste a oeste da Galiza.

Era um génio. Se quigesse, poderia ser um roteirista ou cineasta de renome. Também, se este país desse oportunidades a mais cousas do que ao telelixo, um monologuista no prime time televisivo. Antes de que o Bartual pugesse de moda os micro-relatos nas redes sociais, já ele o fazia, quer no Twitter, quer no Facebook, quer no Instagram. Realmente, cada uma das publicações era parte de um relato. Do relato da vida, sim. Do relato da vida de quem o rodeava, também. Mas eram peças de realidade adubadas de engenho e interligadas por elementos ficcionais —ou se quadra nem tanto— que os faziam únicos.

Era difícil não esboçar um sorriso mesmo quando falava das cousas mais tristes. A mãe do Xosé morreu sendo ele bem jovem, e essa irreparável perda marcou de jeito único o seu caráter. Pois mesmo quando te fazia partícipe do muito que a estranhava, não sentias autocompadecência, mas um fortíssimo pulo vital, um desejo de viver e de desfrutar a vida. As pessoas imprescindíveis são as que nos fazem sentir e ser melhores.

 

Quando eu conhecim Xosé (II)

Café-Bar La Flor (Meira)

Se quadra nos conhecemos em Meira, se quadra não. Na Faculdade soubem dele, mas é óbvio que não o conhecim, apenas um tal Da Flor. Mas ao calor das redes sociais, entendidas no amplo senso de entrecruzamento de pessoas, acabamos juntando os caminhos e chegamos a conhecer-nos bastante bem. Infelizmente, só pola via virtual, porque as nossas frenéticas agendas pessoais e profissionais dificultárom um encontro presencial como é devido, e nem sequer o acaso nos levou a toparmo-nos na rua, em festivais, encontros culturais e de outro teor, quer em Compostela, quer em Teu, quer em Meira…

Porque já é má casualidade que em Compostela, a cidade com mais atos culturais por metro quadrado, não nos tenhamos visto, mesmo após comprovarmos nas redes sociais que compartilháramos o mesmo espaço. Nem tampouco em Teu nalguma das vezes que fum comer ao Fogar do Santiso, local do qual foi responsável de redes sociais. Nem sequer em Meira, nalguma das atividades organizadas pola associação M de Meira, da qual foi presidente.

Nos últimos anos tomámos o costume de nos escrever perto das festas de Meira —dia grande, 15 de agosto—, a ver se o um ou o outro íamos jantar à casa dos seus parentes e assim tomávamos um café e conversa em condições, como é devido, como a gente boa. Que se eu este ano não posso ir a Meira, que se ele este ano vai jantar no domingo e não no sábado, que se há competição de bilharda, que se tenho o carro avariado… Nem querendo desquedar adrede nos sairia mais redondo o planejado; daria isto para algum dos seus geniais monólogos, tenho a certeza.

Quando escrevo estas linhas estou a escrever a história de um grande que nos deixou prematuramente. Estou a escrever quando há pouco mais de uma semana que morreu. Falo de Xosé Salgado Agrelo, falo de Xosé da Flor, falo de um conhecido a quem nunca conhecim, ou um desconhecido que nunca desconhecim. Mas o aprezo polas pessoas e a mágoa pola sua despedida podem transcender, e transcendem, estes detalhes contingentes.

Até que nos volvamos ver, Xosé! E pumba prá cama!

 

BONUS TRACK

A associação cultural M de Meira está a preparar um ato de homenagem. O primeiro encontro para estes trabalhos terá lugar no dia 26 de novembro (domingo). Quem quiger colaborar pode contatar a associação.

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