Xosé Manuel Carballo Ferreiro: «Se não me valesse para falar de Deus, e com Deus, a língua que valeu à minha mãe para aquencinhar-me, não me valia Deus»

Xosé Manuel Carballo Ferreiro | Foto: mondonedoferrol.org

A 28 de outubro faleceu Xosé Manuel Carballo Ferreiro (n. Governo, Castro de Rei, 1944). Tinha apenas 73 anos, dado que pode surpreender a quem «toda a vida» escuitou falar dele ou conhece minimamente o amplíssimo número de atividades realizadas, iniciativas promovidas, artigos publicados… Quando algo se movia no mundo social ou cultural desse cantinho da Terra Chã, dificilmente não andava por ali este crego tão singular.

Xosé Manuel foi professor meu de Religião Católica na escola. Eu era um pipiolo, mas mesmo assim já notava que não era um sacerdote qualquer; baste para exemplificá-lo que um dia, falando das sete pragas do Egito, intentou explicar que provavelmente tinham mais de metáforas do que outra cousa, e intentou explicar racionalmente fenómenos como a chuva de rãs, a praga de lagostas ou a separação das águas do Mar Vermelho. Claro que este ‘homem de fé’ compensava esse aparente ceticismo com a devoção pola magia, deleitando-nos em todos os festivais escolares com os seus truques, da clássica pomba saindo de um chapéu a um ovo que saía de sítios menos dizíveis ou velozes jogos de mãos com o baralho. Mas se algo lembro com especial carinho da minha época escolar eram as obras de teatro, e ali voltava estar Xosé Manuel, quem nos dirigiu aos meus companheiros e companheiras mais a mim em mais de uma encenação.

Anos depois, formando-me como jornalista, fum-no visitar a Castro de Rei para fazer a que seria a minha primeira entrevista —a primeira de vários centos, já ora!—. Ainda não tinha carro e era um dia frio e chuvoso de mais para ir andando até lá, assim que me levou meu pai, quem aguardou pacientemente no bar Modesto com um café —meu pai é um verdadeiro génio, capaz de fazer render um café hora e meia ou duas horas— enquanto eu, gravadora na mão, entrevistava o crego numa dependência próxima. Sirva, pois, a publicação desta entrevista de há já quinze anos como a minha modesta homenagem a este chairego universal, a um desses bons e generosos de que se pode honrar a Galiza de chamar filho.

* * *

Sacerdote, professor de Religião Católica, dramaturgo, ilusionista… Como se podem compatibilizar tantas facetas?

Eu penso que é relativamente fácil, sempre e quando houver algo que prime sobre o resto. E o que prima no meu caso é a condição de sacerdote, e então o resto são maneiras de expressar-me como pessoa, mas também diríamos que diferentes atividades ao serviço do que é o fundamental. Percebo que, quando me ponho a fazer jogos de magia ou de ilusionismo, ou quando me ponho a escrever um livro, pois estou a transmitir também de algum modo aqueles valores em que creio.

Mas são facetas as umas muito diferentes das outras… Não há alguma que requira, por tempo ou polo que for, especial dedicação ou atenção?

Homem… Todas elas requerem o seu tempo. Ir fazendo de cura implica estar ao dia das cousas, ler… E, logo bem, atender as paróquias leva o seu tempo. Preparar as aulas também leva o seu tempo. E à hora de pôr-se a escrever… Pois como essas cousas são sem um prazo fixo, nor-mal-men-te, que há vezes que sim, que há que escrever cousas para um tempo, pois isso também requer. E o dos jogos de magia, la amentavelmente não tenho tempo para ir renovando o programa, mas sim, requereu-me o seu tempo de aprendizagem, e também o seu tempo de acomodação, porque um jogo pode apresentar-se de muitas maneiras e cada ilusionista deve tratar de apresentá-lo com o seu estilo próprio.

Falando nisso, é uma cousa que chama muito a atenção. Poderia-nos dizer onde aprendeu ou como?

Aprendim por casualidade, ainda que prefiro falar de causalidades a falar de casualidades. Alá polo 1962 caiu nas minhas mãos um livro que escrevera um sacerdote que fora salesiano, o padre Wenceslao Cirolé (*) e que se intitulava e se intitula La prestidigitación al alcance de todos. Lim alguns daqueles jogos —que descrevia mui bem—, aprendim-nos, figem-nos de cara a outros, gostárom… E polo ano 1963 tivem a primeira atuação em público, no centro paroquial de Bretonha. Desde aquela continuei e hoje tenho a grande satisfação de ser o padrinho do Coletivo de Magos Valdemar, de Lugo. Era uma grande satisfação que se formasse na província de Lugo. É um coletivo formado já por uns vinte e nove magos.

Lembro que numa das suas atuações se definia, cara ao público, com as seguintes palavras: «não sou mago, mas ilusionista, no sentido de fazer a fantasia na gente, especialmente nos mais cativos».

E nos mais velhos! Bom, esta arte recebe muitos nomes: prestidigitação, magia branca, ilusionismo… De todos, prefiro combinar-me com o do ilusionismo por isso, porque entendo que um ilusionista é uma pessoa que trata de conservar a fantasia e de semear a fantasia arredor de si, sem tratar ninguém de iluso, e isso casa bem com a condição de mago.

 

Traduzim e adaptei Le médécin malgré lui, de Molière.
Eu intitulava O menciñeiro a xesteirazos,
mas na hora de editá-lo recomendárom-me
pôr-lhe Menciñeiro á forza.
Diziam que a palavra gesteiraços
é mui da Terra Chã

 

Algo disso tem também o teatro, ou?

Algo tem que ver, afinal de contas tudo é atuar para um público. Essa seria a primeira parte. E a palavra, pois esta também acompanha os jogos e é um elemento importante, é parte fundamental do teatro, igual que a expressão corporal, falar com o corpo inteiro.

O teatro, como a magia, é um meio para muitas cousas. De um lado, para comunicar ideias. De outro, de ir ajudando as pessoas a perderem o medo, sobretudo as crianças e jovens. De fazer crescer a autoestima, fazendo cousas frente aos demais e que são aplaudidas.

Como começou no teatro?

No seminário tinham o acerto de que todos ou quase todos participássemos nalgumas obras de teatro. A mim tocou-me participar numa também, que se intitulava El cuatrigenio, e fizera um papel que resultara bonito e gostei daquilo. Primeiro, porque gostava de atuar. Depois, já nos colégios, porque pensava no grande valor educacional que tem o teatro: para perder medos, para aprender a escuitar, para falar no seu momento e mesmo para aprender a ler, porque quem vai representar um texto tem de saber mui bem o significado de uma interrogação, de uma admiração e de umas reticências.

Tem preferência em especial por algum dramaturgo?

Haveria que citar muitos, mas digamos que com o qual me sinto mais vencelhado é Molière, já que a minha publicação de teatro foi a tradução e adaptação de Le médécin malgré lui, que Moratín traduzira como El médico a palos e que depois eu intitulava O menciñeiro a xesteirazos. Na hora de editá-lo recomendárom-me pôr-lhe Menciñeiro á forza, porque diziam que a palavra gesteiraços é mui localista da Terra Chã. Eu penso que tinha mais força, mas…

Em que aventuras teatrais está agora ocupado?

Agora que estamos próximos do Natal, como vem sendo tradicional desde há vinte e pico de anos, pois uma pecinha de teatro no colégio, com as crianças do sexto curso. Além disso, o grupo de Mondonhedo —de todas as idades— pediu-me que desse uma mão para representarem outra pecinha minha, ¿No Nadal?. Com moços e moças daqui de Castro de Rei, também no Natal, representaremos uma outra pedinha, que é Recobrou o sorriso o Eleuterio. Estou com o grupo de teatro dos Xubilosos de Moimenta, que são quinze, todos eles reformados; escrevemos a obrinha que representam e ensaiaremo-la uma mestra daqui, Samarita, mais eu. Também estamos a prearar um texto dramatizado de Francisco da Fientosa para a apresentação do livro que recolhe as suas obras e que escreveu Ricardo Polín, que terá lugar o dia 1 de dezembro. Querendo fazer algo original, pareceu-nos bem dramatizar um dos seus textos. Nisso estou também.

 

Don Otto de viaxe pola Chaira…
deu-me muitas satisfações.
Labregos e labregas que nunca leram em galego
dixérom-me que o estavam a ler já pola terceira vez!

 

Porém, género literário com maior difusão, que é o romance, não a frequentou muito. Há algum motivo concreto que o explique ou foi simple acaso

Se quadra é que se me dá melhor o teatro. Também o tempo não dá para bem mais. O romance há que o cuidar bem. Seja como for, estou satisfeito dos resultados… Foi Dom Isidoro Millán quem, depois de ler o meu livrinho de Parábolas chairegas, me dixo que estava na hora de me pôr com um romance, e pugem-me com o Don Otto de viaxe pola Chaira. E acaba de sair o segundo, que é Contrato nulo. Esta vai de meigas, mas não deixa de ser também um romancinho etnográfico.

E quando exerce a atividade literária, que lhe passa pola cabeça?

A verdade é que todo o que se foi publicando, eu não o fora escrevendo inicialmente pensando em publicá-lo. Fôrom outros os que, depois de terem-no conhecido, me animárom a publicar. Então, inicialmente, escrevo pola satisfação de expressar-me. Mas, claro, para escrever para mim só, bem me chegaria com a agenda! Seja como for, sinto a satisfação de escrever. Sou filho de labregos e, na hora de escrever, sinto-me labrego, como se o papel fosse uma leira em que se vão fazendo regos que depois acabam por dar o fruto.

Falando em frutos, destacaria por algum motivo alguma das suas obras? Polas circunstâncias em que se elaborou, o significado…?

Cada um tem a sua história. Menciñeiro á forza escrevim-no numas circunstâncias de doença na minha casa, tendo que vir do seminário para cuidar a minha família. Ao passar esse inverno, sendo já cura em Governo, escrevim-no para representar com os moços e moças daquela paróquia.

Parábolas chairegas é uma série de contos, críticos, com mensagem. Fôrom saindo ao longo de muito tempo… Sim, há algumas parábolas publicadas, mas há mais do duplo sem publicar! A obra de teatro ¿Bo Nadal? Escrevim-na acompanhando um pobre homem algumas noites no sanatório de Calde; pobre, porque não tinha quem o acompanhasse.

Satisfações? O Don Otto… deu-me muitas satisfações, e já não unicamente pola crítica, senão porque alguns labregos e labregas me dixérom que nunca leram um livro desde que saíram da escola e que em galego não leram nenhum, mas que iam pola terceira vez com o Don Otto…!

Destacámos a sua faceta de ilusionista, também a de escritor, mas há que ter em conta que também viveu e vive mui de perto o jornalismo. Como chegou embarcou nisto?

Embarcárom-me, embarcárom-me! Eu nunca pedim colaborar em nenhum meio de comunicação, sempre me o fôrom pedindo. Então bem, também e gratificante, porque é um meio de chegar aos demais por diferentes caminhos. Através da imprensa, sobretudo algumas revistas como a revista Irimia e sobretudo El Progreso, de Lugo. É um contato com gente que não estás vendo, é verdade, mas que depois te encontram por aí e dizem-che que te lêrom e dão-che as suas opiniões. Através da rádio parece que é o contacto mais direto, ainda que não estás vendo tampouco os espetadores, mas já entra em jogo a palavra, a modulação da voz… A televisão já não é do que mais gosto.

 

Embaixador, é um lindo termo,
mas desde que nomeárom Julio Iglesias
embaixador do Jacobeu, já gosto menos da palavra

 

Colaborando em meios de comunicação tão diferentes, decerto lhe surgiria mais de uma anedota!

Não sei se anedota… Na hora de aceitar as colaborações que me pedírom, eu sempre perguntei se podia não ter pêlos na língua, e dixérom-me que sim, polo que a censura não me andou enriba. Ora, houvo gente que se sentiu molesta, coma um senhor advogado do Estado —cujo nome não direi— que me ameaçou. Respondim às suas ameaças dizendo que tirasse para adiante e não tivo por onde tirar.

Anedotas, sim, de estar a tomar algo num bar e que de súpeto vejas que te convidárom e que quem o fizo foi che diz «eu não o conhecia de nada, mas escutei-no na rádio, e então se era-me familiar a sua voz». Sempre é gratificante!

Agora também exerce de embaixador de Castro de Rei na publicação comarcal Terra Chá.

Está bem isto de embaixador, é um lindo termo, mas desde que nomeárom Julio Iglesias embaixador do Jacobeu, já gosto menos desta palavra. Eu penso que ser cura não é só predicar, senão também dar trigo. Penso que o mundo rural tem entre as suas possibilidades o turismo. Acho que o concelho de Castro de Rei, em geral a Terra Chã e toda Galiza, tem muitas possibilidades. Dar a conhecer a riqueza paisagística, literária, de todo o tipo, que temos neste concelho, é uma maneira de ajudar a dar trigo, porque é promocioná-lo e, ao mesmo tempo, fazer um favor a quem não conhece todas estas maravilhas que poupam muitas pastilhas contra o estresse.

Agora que a própria Diocese de Mondonhedo-Ferrol já se meteu na internet, passou-lhe pola cabeça experimentar com a Internet?

Ando também por aí, porque já houvo quem me meteu na Internet e em diferentes campos. Mas não posso utilizar Internet na casa porque o meu telefone é dos que… É desses que nos meios de comunicação dizem que são de Dom Manuel, mas que depois Telefónica me cobra a mim. Fôrom um avanço estes telefones sem fios que pugérom no rural, mas não nos permitem ainda a ligação [doméstica] à Internet.

 

Se não me valesse para falar de Deus, e com Deus,
a língua que valeu à minha mãe
para aquencinhar-me, não me valia Deus

 

Na sua ampla trajetória em variados campos, recebeu numerosos prémios. Há algum que tenha especial significação para você?

O principal prémio não está emoldurado como um diploma nem chegou acompanhado de compensação económica. O principal prémio é ver que o que vou escrevendo chega ao público que mais me interessa, que é aquele público mais imediato, as labregas e labregos do meu redor, que são a quem mais devo.

Também, um dos prémios que me concederam, o de Lucense del Año —prefiro dizer del año e não do ano, não se vá entender mal—, e já nem lembro de que ano fora! Agradecido, por quanto que sou cura, mas pode ser reconhecimento a muitos outros curas que, de jeito mais calado, também foram fazendo bastante por esta Galiza nossa.

Acima de tudo dixo que era crego e, além disso, em galego, numas circunstâncias…

Digamos que é o fundamental da minha identidade, na qual se vão acoplando as peças do puzzle. Destacas o de «em galego». Eu penso que se estivesse na Zâmbia o seria em zambiano ou como se diga. Eu acho que a língua é fundamental, e a língua galega é fundamental também para o sacerdote quando se dirige a galego-falantes. Se a mim não me valesse para falar de Deus, e com Deus, a língua que valeu à minha mãe para aquencinhar-me, então não me valia Deus. Quero com isto dizer que é uma forma de encarnar a mensagem na realidade concreta na que vivemos. Toca-me viver na Galiza, estou concreto de que assim seja, e dentro da Galiza, na Terra Chã. E se fosse no Moçambique, pois teria que acomodar-me ao Moçambique.

Destaquei o de «em galego» também polo papel negativo da Igreja. Há no seu compromisso algo de devolver a imagem que pode ter perdido a Igreja?

Tivo-a perdida e tem-na perdida, porque é lamentável que desde há anos não se avance, que estejamos em 7% de celebrações litúrgicas em galego. Houvo uma disfunção, que será todo o desculpável que se quiger, mas que nos tempos de hoje não encontro já muita desculpa. Eu acho que não é tanto um desejo de devolver o que se perdeu, mas de ser consequentes com o que se é.

 

Não temos de obedecer sempre os nossos superiores:
levámos a cabeça sobre os ombreiros
também para pensar e discorrer

 

Pensa que resta muito caminho à Igreja para se adaptar aos tempos que correm?

Penso que tem que estar num labor constante de adaptação. Se a mensagem do Evangelho é uma mensagem salvadora para o homem e a mulher daqui e de agora, tem que ir adaptando essa mensagem —sem traí-la—para o homem e a mulher daqui e de agora. Tem que estar num constante labor de atualização. Acho que em muitos aspetos fica desfasada, então tem que correr para chegar.

Muitas vezes, quando um membro da Igreja dá opinião dos temas da atualidade, saem políticos advertindo que os cregos se devem aos seus imediatos superiores. Quer isto dizer que têm que opinar coma os seus superiores?

Desdobraria esta resposta. Os políticos —de uma tendência e da outra— querem aproveitá-lo tudo e aproveitar-nos a todos, e quando gostam, aplaudem, e quando não, dizem que nos metamos na sacristia. Os políticos dizem que obedeçamos os superiores, mas tampouco gostam muitas vezes do que os nossos superiores dizem; querem que os obedeçamos na medida em que eles gostem do que os nossos superiores dixerem.

Outro aspeto da pergunta seria se temos de obedecer sempre os nossos superiores. Não, não temos: levámos a cabeça sobre os ombreiros também para pensar e discorrer. Naturalmente, para que haja uma unidade na Igreja, tem que haver uma coordenação, mas tiradas aquelas cousas que digamos são dogmas de fé, o resto é dialogável e discutível.

Por último, e ainda falando na Igreja, um tema de atualidade. Que opina da canonização de Dom Josemaria Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei?

Não sou simpatizante do Opus Dei. Sou simpatizante da obra de Deus que se vai fazendo cada dia, sem constringi-la em excessivas normas, ainda que as normas são importantes. Feita esta premissa, eu não sou quem para julgar aqueles que decidírom canonizar Dom Josemaria. Seja como for, digamos que, de momento, ainda não é santo da minha devoção.

 

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* Na entrevista original dixo, e várias vezes, Cirolé. Porém, no Google, só topei Wenceslao Ciuró. Seja como for, ou porque pronunciava Cirolé com muita graça e elegância, quigem-no manter assim.

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