Proteger a memória histórica do aeroporto da Lavacolha

Avião da Norwegian homenageando Rosalia de Castro | Foto: Norwegian

Meses atrás oficializou-se a notícia: o aeroporto da Lavacolha, em Santiago de Compostela, levaria o nome da mais internacional das escritoras galegas, Rosalia de Castro. Desde que conhecim a notícia, duas sensações bem diferentes misturavam-se em mim. De um lado, o orgulho, por quanto a Rosalia significa e todo o que se poderia ganhar com a nova denominação. Do outro, a tristura, por todo o que se poderia perder com a mudança da denominação.

Durante meses, a cousa não avançou, porque as Administrações envolvidas discrepavam sobre quem deveria assumir o custo económico de rebaptizar o aeroporto compostelano. Mas agora a cousa parece ter enveredado polo caminho certo, a teor das declarações do diretor da Lavacolha, que hoje vaticinou estar quase pronta a nova denominação: Aeroporto de Santiago – Rosalia de Castro.

O quasi-anúncio volveu suscitar em mim as dormentes e enfrentadas sensações que mantinha hibernadas nos meses precedentes, e acho que a Galiza toda terá muito a ganhar se assumir e canalizar as minhas próprias pulsões internas. Explico.

A memória do Concelho da Enfesta

O aeroporto da Lavacolha, na atual denominação, conserva parcialmente a memória do antigo Concelho da Enfesta, do qual escuitei falar pola primeira vez há algo mais de onze anos. A Enfesta foi anexada em 1962 polo Concelho de Santiago de Compostela, que já em 1925 anexara o vizinho Concelho de Conjo. A Enfesta estava formada polas freguesias da Varzela, Busto, Carvalhal, Cesar, Enfesta, [São João de] Fecha, Grijoa, Marantes, Nemenço, Sabugueira, Santa Cristina de Fecha e Verdia.

Precisamente, a Lavacolha é só uma aldeia da freguesia de [São Paio de] Sabugueira, não uma freguesia, ainda que muita gente assim o pense. Os primeiros passos do aeroporto datam da década de trinta do século passado. Portanto, que a infra-estrutura ainda leve o nome da Lavacolha, mantém viva a memória do extinto Concelho da Enfesta, ao qual pertenceu aproximadamente trinta anos (1932-1962), antes de ser o aeroporto da capital da Galiza.

Igual que acontecera com o desaparecido Conjo, os novos vizinhos e vizinhas de Compostela padecêrom e padecem ainda hoje uma enorme falta de direitos, mesmo apesar de que têm as mesmas obrigas. Quando eu conhecim a história do Concelho da Enfesta, foi precisamente num protesto vicinal para reivindicar serviços e direitos. Direitos, também, muitas vezes vulnerados a partir de uma visão urbana das cousas, ignorando as particularidades da vida no rural, como o gandeiro da Sionlha —freguesia da Enfesta— multado porque as suas vacas defecavam numa via… rural.

A memória das vítimas da ditadura

Doutra parte, o nome Lavacolha ainda guarda outra memória igualmente valiosa: a das vítimas do franquismo confinadas no campo de concentração do mesmo nome, condenadas a trabalhos forçados para converterem o antigo aeródromo num verdadeiro aeroporto. Algo disso comentara já neste mesmo blogue —coloquei antes a referência— e tendes informações mais alargadas nos artigos de Alba Suevos e Xosé Luís Santos que referencio abaixo.

Segundo relatam Suevos e Santos, durante o franquismo houvo nove campos de concentração no nosso país; no da Lavacolha trabalhariam entre 2000 e 3000 retaliados polo franquismo. O restos dos que ali perecêrom acabárom numa vala comum perto da pista de aterrissagem. Os ali condenados a trabalhos forçados malviviam em miseráveis condições: frio, fame, intermináveis jornadas de trabalho, castigos físicos… E, para além disso, submetidas a um regime de terror e um surreal processo de ‘reeducação’ que incluia rituais como içar a bandeira fascista ou cantarem os hinos dos seus verdugos.

A memória não pode ser apagada

Na memória do antigo Concelho da Enfesta e de uns vizinhos que ainda hoje luitam contra o esquecimento, na memória dos milhares de retaliados polo franquismo que sofrêrom o indizível no campo de concentração da Lavacolha, acho que a mudança de nome do aeroporto deve ir acompanhada de uma atuação a sério para que a memória não seja apagada.

Igual que pedia Santos no seu artigo para o Praza, acho que num lugar bem visível do aeroporto deve haver um permanente gesto de lembrança do antigo Concelho da Enfesta e das vítimas da Lavacolha. Não avonda com uma pequena placa ou um cartaz devidamente camuflado, não. Ao meu ver, deve haver uma instalação física e bem visível, que chame a atenção sobre a barbárie fascista, sobre a impunidade dos verdugos, sobre a miséria (in)humana. Algo que não deixe ninguém indiferente, algo que não seja facilmente contornável.

Eis o meu apelo, à atenção de quem corresponder.

 

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