Candidato Beiras

Beiras e o sapato


Xosé Manuel Hixinio Beiras Torrado, um nome à altura de toda uma personalidade, de todo um persoeiro. A icónica e leonina guedelha branca, a senhorial barba que serve de altar a uns felinos olhos que enxergam o mundo e a analisam a realidade de uma maneira passional, visceral e amiúdo contracorrente. As mil vidas do professor e do militante político, detonante de explosões e de implosões, amálgama de diferenças e dissolvente de unidades, açoute de velhos e vindicador da experiência, ídolo de jovens e cético com a juventude. Todo isso, e muito mais, é Beiras.

Xosé Manuel Beiras Torrado foi derrotado no seu intento de recuperar o posto de porta-voz nacional do BNG na assembleia de Âmio (janeiro de 2012). Apresentara-se como fórmula para unir o BNG e, após a derrota —e permitam-me a metáfora—, alçou o sapato e bateu bem forte na mesa para anunciar a despedida da casa comum do nacionalismo galego, justo o contrário do que prometera fazer. Em fevereiro, poucos dias depois daquela assembleia de má lembrança, sentou as bases de um novo projeto político, Anova, com ele à frente.

Xosé Manuel Beiras foi o ingrediente determinante para fórmula eleitoral AGE; infraestrutura económica e humana de Esquerda Unida-Izquierda Unida (partido residual na Galiza, mais perto da desaparição do que outra cousa) com capital simbólico do nacionalismo galego moderno. E a branca guedelha voltou aos cenários, do meio da senhorial barba voltárom brotar vigorantes discursos que conseguírom ligar para a política segmentos de população desativados. O êxito eleitoral da AGE está intimamente ligado à sua figura.

Beiras é uma proposta de parte: é um referente histórico do nacionalismo galego moderno —valham as contradições entre histórico e moderno—, não é um podemita nem um comunista espanhol. Beiras é a única figura de autoridade que emerge da luita de egos que é o dia-a-dia das chamadas marés —essa espécie de AGE ampliada—, em boa medida porque o seu ego é o maior de todos —e razão não lhe falta, que para algo é o pai da criatura—. Esse ego converte-o numa opção nefasta para chefiar um Governo, que para algo ele sempre foi por livre; não é doado trabalhar com alguém que sempre crê ter a razão —inclusive quando a tem—, que não tolera bem a crítica. Contudo, o seu carisma e discurso vigoroso, intactos após mil batalhas internas nos mais diversos frentes, convertem-no no candidato total, imunizado contra tudo. Contra tudo, exceto o passo do tempo: Beiras é também um senhor de 80 anos, portanto um senhor que em 2020 —e por muitos mais!— teria 84 primaveras; Beiras chamou «velho» —e cousas piores— a Manuel Fraga quando este concorreu, com 79 anos, às eleições de 2001. É lei de vida assinalar que o Beiras está já na parte final do seu trajeto político —e não só—. Ressoam ainda na minha cabeça as suas palavras, em Âmio, quando um Beiras de 76 anos aludia à militância do BNG nos seguintes termos: «se me figerdes o sem-favor de, aos meus anos, converter-me no porta-voz nacional…». Em 2012 já ele próprio assinalava o problema da idade e qualificava de sem-favor o regresso à primeira cena política; sobra fazer cálculos com quatro ou oito anos adicionais…

Em definitiva, a fórmula Beiras seria uma fórmula de sucesso para um bom resultado eleitoral. Sem dúvida, seria o melhor candidato para ganhar umas eleições. Porém, a pior opção para dirigir um Governo. Eis o paradoxo e eis, nas entrelinhas, os porquês do candidato Beiras, o candidato que não será.

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