Marea(ndo à) Galega (II)

Algo mais de um mês atrás pronunciava-me sobre a imparável rutura entre a Iniciativa pola Unión e a Marea Galega. É triste dizer que, modéstia à parte, tinha razão eu ou, polo menos, ia bem encaminhado.

Os erros do BNG

Dizia daquela que do BNG não havia «vontade real» de confluir com Anova. Choveram-me bastantes críticas que insistiam em que nos órgãos de debate do Bloco a postura foi sempre de trabalhar pola unidade. Não o nego, não nego que essa fosse a postura defendida nos órgãos oficiais… Do BNG. Mas o BNG é um magma de organizações e de correntes dentro dessas organizações e ainda de pessoas que intentam navegar na equidistância. E no Bloco há pessoas que insistiram, insistem, em que a unidade se deve lograr deixando fora as organizações de obediência espanhola; não lhes basta com que estas afirmem a plena autonomia de um hipotético grupo parlamentar galego: querem-nas fora. É legítimo, mas é quebrar as regras marcadas do começo do jogo.

Neste ponto é muito revelador (demasiado) um editorial do Sermos Galiza da semana passada, publicação que há muito tempo que se converteu a efeitos práticos em órgão de comunicação (oficioso?) da UPG. Esse artigo (aliás brevíssimo), é assinado por quem o assina e imagino que reflete algum tipo de posicionamento oficial ou muito próximo da oficialidade da «U» e, portanto, do «B». Pois este editorial, de ter saído dous meses atrás, já nos aforrava bastante trabalho a alguns, que nem perderíamos o tempo ou a paciência, porque basicamente:

  • Dá por ponto assente que há dous projetos estratégicos «dificilmente sintetizáveis». Resulta surpreendente que seja difícil a confluência entre projetos quando, ao mesmo tempo, há inúmeros governos locais em que o BNG «sintetiza» com uma organização ideologicamente mais afastada de si, como é o PSOE.
  • Considera inassumível a presença da marca Podemos nas papeletas (imagino que conjuntamente com outras marcas). Deixando de lado que eu discrepo de que seja tão inassumível (o papel terma do que lhe põem e as papeletas são para um dia, não quatro anos), esta pataca quente corresponde às ditas marés, que são as que propugnam que as candidaturas pertencem ao povo, não aos partidos.
  • Afirma que só uma candidatura galega «poderia em teoria garantir» a constituição de um grupo parlamentar galego. Isto daria para outros debates, mas fazendo bem as cousas não teria por que ser necessariamente um obstáculo. Por exemplo, uma candidatura galega só do BNG logrou nas eleições espanholas de 2008 apenas dous assentos em Madrid, precisando os apoios do PSOE para contar com grupo próprio. O caso mais parecido ao de uma candidatura de unidade galega seria o da Entesa Catalana de Progrès, na qual estavam partidos independentistas catalães e partidos «de obediência espanhola», e que se configurou como grupo próprio nas Cortes espanholas.

Isto, no que atinge aos erros de uma parte, que são já uns quantos.

Os erros das marés, de Anova

Xavier Campos (atualmente, membro da Executiva Nacional do BNG) aforrou-me neste ponto muito trabalho com um artigo em que resume vários episódios dos entraves da AGE (Anova e Esquerda Unida, basicamente) ao Bloco.

Do lado de Anova tem havido declarações públicas instando o BNG a somar-se à unidade. Noutras palavras: «a unidade somos nós e o BNG é que se deve somar a ela». Esta premissa parte de aceitar uma posição de subalternidade do BNG que, a priori, não evidenciárom as últimas eleições, as municipais, em que o BNG logrou 189.465 votos e 468 concelheiros e concelheiras frente a 122.927 votos e 108 concelheiros e concelheiras das ditas marés municipais (Marea Atlántica, Maria de Vigo, Marea de Pontevedra, Compostela Aberta, Ferrol en Común, Ourense en Común, Ames Novo, Lugo Novo e as coligações locais com a marca SON [Anova]). Incluso com a apreciação mais favorável e somando os votos de muitos pequenos partido cuja orientação não conheço, como também os apoios coletados por CxG e a Alternativa dos Veciños (Oleiros), daria 235.454 votos e 306 concelheiros e concelheiras, cifras bastante páreas com as do BNG.

O principal problema das marés é que nem elas próprias sabem bem qual é a sua força ou quem as integra atualmente. Rafael Sisto (Anova), alcaide de Teu, deixa-o bastante claro neste comentário do Facebook, relativo às recentes eleições na Federação Galega de Municípios e Províncias (FEGAMP). No conclave, segundo a sua interpretação, o BNG, «polos concelhos que governa», teria direito a 190-200 votos (bastante longe dos 468 concelheiros/as que lograra, o qual parece entrar dentro da lógica). Mas é que, segundo os seus mesmos cálculos, às marés corresponderiam mais votos do que concelheiros/as obtidos, até 230 (só logrou, oficialmente, 108).

Rafael Sisto Seja como for, os números não outorgam as marés, nem muito menos, o direito de considerarem o BNG um elemento «inferior», «subordinado». É uma marca que cotiza à baixa, sim, mas continua a ter um importante apoio eleitoral e não parece justificado que esta organização seja tratada com desprezo a partir de uma visão soberba (como se verá). Com os números na mão, hoje em dia não é uma força tão secundária como para que seja a que se deva «somar» às outras, como para não participar em negociações entre iguais.

E com soberba falo de declarações como as proferidas esta mesma semana pola coordenadora nacional de Esquerda Unida que, sem citar expressamente o BNG, afirmou que atualmente há «forças que, por não se integrarem numa candidatura de unidade, «vão caminho da desaparição». Muita soberba para alguém cuja formação política, Esquerda Unida, até o (brilhante) surgimento da AGE era uma força extraparlamentar e com mais possibilidades de desaparição do que entrada no paço do Hórreo.

Com este e outros episódios episódios, um observador inocente pensaria que tudo forma parte de uma estratégia premeditada (e infrutuosa?) para fazer que o BNG se auto-exclua da unidade. Realmente, se não fosse pola situação de extrema debilidade que padece atualmente o Bloco, tenho a certeza de que não se fariam tantos esforços ou tantas concessões, a um nível que praticamente roça a humilhação da que chegou a ser segunda força política na Galiza (com Xosé Manuel Beiras à frente, certo é).

Não sou um observador inocente, mas é assim como o vejo. O BNG não é um compêndio de virtudes, mas os factos demonstram que foi das organizações que menos mal agiram neste processo de tentativas convergentes. As declarações ofensivas de certos líderes e lideresas teriam provocado, noutras circunstâncias, uma outra atitude do BNG, que contra todo prognóstico (inclusive o meu) intentou até o fim a candidatura única. Parece evidente que havia um veto premeditado ao BNG, totalmente legítimo, mas o honesto teria sido dizê-lo claramente para não nos fazer perder o tempo aos demais. Digo eu, eh!

Iniciativa pola UPG?

Consolidada a rutura (apesar as coincidências) entre a Maré Galega e Iniciativa Pola Unión, num processo que mesmo deixou no caminho Compromiso por Galicia (com a sua própria fratura interna, protagonizada polo setor de Rafael Cuiña), ambas as duas plataformas continuárom o trabalho de maneira separada. Nesta mesma semana, de facto, terão lugar as primárias da IpU, da qual sairão as pessoas que encabeçarão as listas eleitorais de Nós-Candidatura Galega.

O primeiro que pode surpreender é que as pessoas candidatas para chefiar as listas pertençam todas ao BNG e, mais concretamente, uma pessoa com carné conhecido da UPG (Carlos Callón); uma pessoa como mínimo tolerada pola UPG ou com o UPG-seal-of-approval (Carme Adán); uma pessoa cujo carné desconheço (Tareixa Novo); uma outra cujo carné tampouco conheço, Olalla Rodil, mas que polo seu labor profissional no Sermos Galiza inevitavelmente vai parecer ligada à «U»; e uma militante do Movimento Galego ao Socialismo (partido integrado no BNG), Noa Presas. Como se vê, polo menos num caso tenho a certeza de que uma destas pessoas não é da UPG; e o próprio Néstor Rego (secretário-geral da UPG) nega que Novo ou Adán tenham o carné, com o qual só Callón e/ou Rodil entrariam na categoria upegalha (dito seja com carinho e respeito).

Apesar disto, um tertuliano da Rádio Galega, aliás fichado no verão como assessor do grupo municipal da Compostela Aberta (ou seja, de uma das marés), afirmava sobre a rutura das negociações entre IpU e a Maré Galega:

Há várias razões, mas acho que á uma mui clara, e é a cerração em que se instalou o BNG aqui, em posições de que “a unidade são eu” e que “tudo tem que construir-se ao redor de mim”. E utilizou para isso o demo, não?, a bandeira de “cuidado que aí vêm os espanholistas de Podemos”. E com esse discurso montárom, digamos, toda uma encenação com uma maré própria, com umas primárias que têm anunciadas com candidatos exclusivamente do partido que governa do BNG, que é a UPG… E nessas estamos […].

A falsidade do senhor Neira ainda não foi emendada publicamente, imagino que porque o labor assessor não lhe deixou tempo. Mas, com certeza, não demorará muito em, com humildade, desculpar-se polo erro.

Mesmo no caso de todas as pessoas candidatas a estas primárias forem da Unión do Povo Galego, não se poderia por isso culpar a UPG. Quero dizer, não é lícito criticar alguém por fazer o seu trabalho, que neste caso é apresentar candidaturas, animar à participação nas primárias… E pedir o voto para os teus candidatos e candidatas.

No caso da IpU, sim, as cabeças de lista serão do BNG (e, nalgum caso, quiçá da UPG), circunstância unicamente atribuível à incomparecência de alguma suposta alternativa.

Profundas feridas; falta de honestidade e valentia

Para qualquer pessoa do comum ou com senso comum, todo este artigo não passa de uma enxurrada do confronto. Como num jogo de pingue-pongue, a bola vai e vem e o próprio espetáculo depende dos atores e do lado a partir do qual se vê a cena.

Mas tenho ainda mais clara uma cousa que já afirmava eu em setembro: Anova tem interesse zero em formar candidatura com o BNG, porque as feridas de Âmio estão muito presentes, e em setores bloqueiros acontece mais ou menos o mesmo. Estando assim as cousas, e aparecendo ainda outros atores polo meio (Esquerda Unida, Podemos…), estava cantado de antemão que não se poderia chegar a uma candidatura unitária.

Porém, ao meu ver, o honesto teria sido dizê-lo do começo, não alargar desnecessariamente no tempo o debate, que produziu já minutos de televisão e rádio, páginas de diário impresso e moreias/mareias de megas na rede (entre artigos e comentários).

Faltou, portanto, honestidade. Faltou, também, valentia para se expor publicamente com essa honestidade.

E depois?

O «agora» já o vemos: haverá duas listas galegas; portanto, nenhuma poderá assumir para si o epíteto «galega» ou «de unidade» sem faltar à verdade.

E depois? Depois das eleições espanholas haverá outras mais importantes ainda, as eleições galegas de 2016, escassamente um ano por diante para que se chegue a essa data com uma verdadera candidatura galega, assente nas bases da esquerda social e do compromisso nacional com a Galiza. O país precisa uma candidatura capaz de botar o PP das principais instituições galegas (Parlamento e Junta) e de reverter a desfeita social e nacional que padecemos desde 2009. Podemo-nos permitir erros daqui a 20 de dezembro de 2015, mas daí em diante já não há margem para mais erros.

Generosidade, honestidade, valentia e sentido de país; esses hão de ser os princípios reitores.

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