Malditos separatistas!

Em tempos em que os nacionalismos emancipadores (=independentismo, separatismo) são ridiculizados e vilipendiados polas cavernas mediáticas, é bom ter memória histórica a respeito e ter claro também que a história é um processo, um caminho, não um destino ou caixão fechado. A história está em permanente construção, nada é imutável (nem sequer os princípios).

As iminentes consultas independentistas na Escócia (vinculante) a 18 de setembro e da Catalunha (não vinculante) a 9 de novembro voltaram trazer à tona duas realidades:

  1. A história continua em construção.
  2. Inúmeros povos do mundo continuam submetidos aos ditados de outros.

Polo geral, pretende-se desqualificar as tentativas separatistas aduzindo que são cousa «do século XIX»… Como se isso fosse algo mau! Apenas lembremos que os maiores massacres de seres humanos foram no século XX… ou que foi no século XX que se produziu a imensa maioria de processos emancipadores (com as consequentes criações de Estados soberanos) em todos os continentes (exceto a Antártida ;)), também na Europa: Noruega (1905), Islândia (1918), Irlanda (1922), na década de 90 as repúblicas ex-soviéticas (Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia) e da ex-Jugoslávia (Bósnia e Herzegovina, Croácia, Eslovénia e Macedónia). Propositadamente omito outros processos emancipadores europeus dos quais haveria que falar com maior detalhe.

É claro, os processos soberanistas que culminaram com a constituição de um Estado próprio são minoria. Alguns fracassaram, como por exemplo a efémera República Galega proclamada a 27 de junho de 1931, a qual durou apenas umas horas. Contudo, o militante arredista Fuco Gomes recolhia na Havana (Cuba), dous dias depois, o regozijo por esta declaração.

Deixo-vos com uns fragmentos literais do texto com que um grupo de tolos (todos homens e um bocado racistas e teocratas, aliás) pretendia decretar a independência do seu terrunho. Literais, é claro, salvo quando omitir […] cousas ou ALTERAR algumas.

Pergunto-me se responderiam a estes loucos no seu momento com frases como «juntos somos más» ou «es más lo que nos une que lo que nos separa»; ou, ainda, a minha preferida, citando El-Rei(*) Juan Carlos de Bourbon: «Lo peor que podemos hacer es dividir fuerzas, alentar disensiones, perseguir quimeras, ahondar heridas».

Quando no curso dos acontecimentos humanos se torna necessário para um povo dissolver os vínculos políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre as nações da terra, a posição separada e igual […], um digno respeito pelas opiniões da humanidade exige que declare as causas que o levam à separação.

 

Nós consideramos […] que todos os homens foram criados iguais, que foram dotados […] de certos direitos inalienáveis, que entre estes se encontram a vida, a liberdade e a busca da felicidade. […] Que sempre que qualquer forma de governo se torna destrutiva destes fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir um novo governo, baseando-o em tais princípios, e organizando os seus poderes na forma que lhe pareça mais adequada para garantir a sua segurança e felicidade.

 

[…] quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objectivo, evidencia um desígnio de submeter o povo ao despotismo absoluto, é do seu direito e do seu dever libertar-se de tal governo e instituir novas salvaguardas para a sua segurança futura. Tal tem sido o paciente sofrimento DESTE PAÍS; e tal é agora a necessidade que as obriga a alterar os seus sistemas de governo anteriores. A história do actual Rei da ESPANHA é uma história de ofensas e usurpações reiteradas, tendo todas elas por objectivo directo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes estados. Para provar isto, permitam-nos submeter os factos ao juízo de um mundo imparcial.

Recusou a aprovação de leis das mais convenientes e necessárias ao bem público. Proibiu os seus governadores de aprovar leis de importância imediata e urgente, a menos que se suspendesse a aplicação das mesmas até se obter o seu consentimento; e, quando foram assim suspensas, deixou totalmente de lhes prestar atenção.

[…]

Obstruiu a administração da justiça, recusando a aprovação de leis encaminhadas para a criação de poderes judiciários.

Fez os juízes dependerem apenas da sua vontade para o exercício dos cargos, assim como para a quantia e pagamento dos salários.

Criou uma multidão de novos cargos públicos, e enviou-nos um enxame de funcionários para incomodar o nosso povo e devorar os seus recursos.

Conservou entre nós, em tempo de paz, exércitos permanentes, sem o consentimento dos nossos poderes legislativos.

[…]

Associou-se a outros para nos submeter a uma jurisdição estranha A NOSSO ESTATUTO DE AUTONOMIA e não reconhecida pelas nossas leis […]

 

Assim sendo, Nós, representantes DA GALIZA, reunidos em Assembleia Geral, apelando para o juiz supremo do mundo pela rectidão das nossas intenções, em nome e com a autoridade do nobre povo DESTA TERRA, fazemos público e declaramos solenemente: que estas colónias unidas são e devem ser por direito, Estados livres e independentes; que ficam exoneradas de toda a fidelidade para com a coroa britânica, e que qualquer vínculo político entre elas e o Estado ESPANHOL é e deve ser totalmente dissolvido; e que como ESTADO LIVRE E INDEPENDENTE, DISPÕE de plenos poderes para declarar a guerra, assinar a paz, contrair alianças, estabelecer comércio, e praticar quaisquer actos e acções a que têm direito os Estados independentes. […]

Quem ler este texto, só pode concluir: «malditos separatistas!». Que cabeça louca redigiria tal cousa? Quem ousaria redigir tão ousada declaração de independência da Galiza contra a Espanha? Malditos separatistas! Mas, quem são estes separatistas? Pois uns tolinhos do século XVIII, concretamente de 1776 😉

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(*) Juan Carlos de Bourbon abdicou como Rei da Espanha a 19 de junho de 2014. Contudo, honorificamente mantém o título de Rei mercê ao Real decreto 470/2014.

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