Gigabaite

Um amigo fez-me saber esta manhã que no dicionário e-Estraviz aparece a palavra gigabaite. Comentando-o com algumas pessoas reconheciam-se estranhadas por essa grafia, por esse -baite.

Ao meu ver, pouco deveria estranhar, a fim de contas a grafia original inglesa é gigabyte, que na nossa língua pronunciaria-se aproximadamente “gigabait”, se bem a pronúncia mais corrente na Galiza seria “xigabai”.

À hora de adatar termos de uma língua A para uma língua B devem ter-se de preferência em conta as caraterísticas da língua B e, num segundo lugar, a história e a tradição gráficas.

Mas antes disso cumpre lembrar os problemas para adaptar gigabyte ao galego:

– a letra “y”, em princípio ausente do nosso alfabeto (se bem introduzida após o Acordo Ortográfico, se bem reservada para palavras estrangeiras)

– a pronúncia real do termo, onde

a) “y” tem o valor do ditongo “ai”

b) a partícula “te” soa só como “t”, e em galego não há palavras acabadas em -t

Mencionado isto, e atendendo a outros precedentes, temos duas alternativas para adatar gigabyte ao galego: gigabai, mais próximo da pronúncia diária, ou gigabaite, igualmente válido e que se mantém mais reconhecível ao manter esse ‘t’ do termo original em inglês.

Na nossa língua é corrente adatar palavras estrangeiras com um “t” no final de sílava ou de palavra metendo-lhes um ‘e’ que facilite a pronúncia, costume tradicional galego considerado ‘vulgarismo’ tanto do espanholismo como polos novos ‘codificadores’ da língua, isolacionistas eles. ‘Vulgarismo’ que deixa de ser tal quando em castelhano se faz o mesmo, pensemos em bilhete/billete, do francês ‘billet’, e que se poderia ter adaptado como ‘bilhê/billé, igual que o castelhano adatou ‘carnet’ para carné.

Pessoalmente (e assim o deveu entender também o professor Estraviz, com toda uma vida dedicada à lexicografia), a adatação escolhida seria gigabaite, homologável a outros termos na nossa língua como bife (beef), futebol (football) ou o referido bilhete (billet).

No entanto, acho que o único preocupante, mesmo para os isolacionistas, deveria ser não a solução escolhida para datar um termo que forma já parte da nossa fala diária (mesmo com a forma abreviada ‘giga’), mas que noutros dicionários (isolacionistas, é claro) a palavra não apareça nem na forma original nem em qualquer possibilidade adatada. Eis mais um dos dramas do isolacionismo.

  • Manoel Juaquim

    Desculpem-me a intromissão, causada por certa simpatia (e vaga curiosidade…) para com coisas da Galiza.
    Praticamente nada sei bem acerca das questões linguísticas do galego, desde tempos históricos até a atualidade; mas tenho visto algumas informações, principalmente após ter sabido (antes da determinação de ser posto a vigorar) da participação e do interesse do seu país (assim o trato – ou preferem “comunidade autônoma nacional”?) no último des/acordo ortográfico lusofônico e na Comunidade de Países de Língua Portuguesa. – Por quê? Para quê? (Não o compreendia absolutamente; parece que agora me surge alguma luzinha a tal respeito…)
    Bem, quanto a esse “neologismo” registrado pelo “e-Estraviz”, o autor certamente teve seus bons motivos (linguísticos? políticos? econômicos?) para aquela opção. Ora, SE é comum encontrar-se vocábulos galegos iniciados por “g” com som de “j” (inglês: “zh” – na verdade, seria “dj” tanto em galego quanto em português < inglês: "g"; mas não pronunciamos tal vocábulo como no inglês "real"… – certo?), ele fez bem ao não "esnobar", se usasse o "x", ainda que… tão galego.
    O restante justifica-se por si mesmo (ainda que você, autor, tenha feito uma certa "apelação" quanto ao "y" – que NÃO É "NORMAL" nem como semivogal nem vogal, em português tampouco [aprendi-o agora, por sua informação, também quanto ao galego]).
    Tudo me parece então conveniente, e o português DEVERIA, sim, fazer o mesmo. – Pena, que o Brasil seja acanhado quanto a certas adaptações escritas (prefere ERRAR muito – na escrita E na pronúncia [não só…, mas, sobretudo] de palavras estrangeiras…); já Portugal… parece meio tímido (talvez, após o tal des/acordo?), mas não sempre faz "um belo gol" em suas adaptações (e talvez esteja evitando mais alterações – sempre arriscadas… – além do des/acordo…). Então, o jeito melhor sem dúvida seria… IMITAR o "e-Estraviz"!

    Parabéns então, galegos!

  • A mim parece-me uma solução RAE 😀

  • Miguel

    Penso que se omite discutir cuestións non filolóxicas relativas a este asunto. Existen as unidades de medida “byte” e “bit” e diferenciar ambas é crítico pois a diferenza é moi sustancial. Na miña opinión, representar “baite” por “byte” sería incoherente con seguir usando “bit”. Nese caso “bit” deberíase adaptar, como parece extendido, tal como “club” a “clube” ou “blog” a “blogue”. Nese caso teriamos “baite” e “bite”, ou se non se adapta, “baite” e “bit”. En calquera dos casos, penso que ambas parellas poden inducir a confusión. E isto sería moi grave pois a ciencia ten que ser exacta. A xente que vimos do ámbito científico tecnolóxico insistimos sempre moito en que non son convenientes adaptacións de nomes de científicos, abreviaturas, unidades de medida e similares. O contrario soe levar a confusións terribles, e aquí poderíanse contar anecdotas a esgalla. Por exemplo, preferimos Amperes e non Amperios e DNA e non ADN. Ollo, que isto que digo non exclúe de que se faga terminoloxía en galego, pero hai uns límites do razoable e escribir “baite” paréceme que está claramente fóra deles.

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