Por que Alonso Montero criticou Carvalho Calero?

republicano espanhol alonso monteroA raiz desta entrevista em Vieiros [PDF] e deste artigo do Alema, vejo-me na obriga moral de escrever este textículo para dar resposta a uma questão: porquê Alonso Montero critica Carvalho Calero utilizando um argumento tão baixo (e tão pouco argumentado) como «Carvalho Calero faláballe en castelán á súa muller e aos seus fillos. Por que a lingua de amor dos galeguistas é o castelán? É que estaba Franco aí no medio?».

Sobre Carvalho Calero, cumpre assinalar que ele era uma pessoa que gostava das línguas. A sua infância foi em castelhano, como a de muitas outras pessoas de Ferrol e do seu status social (cuido que não é preciso desenvolver isto último, que já todos devemos saber o que é). Porém, Carvalho Calero descobriu a galeguidade cultural e política, e assim recuperou a língua galega para si, começou a militar no nacionalismo político (após a Guerra Civil espanhola, um conselho de guerra condenou-no a 12 anos de cárcere por «separatista»)… e foi o primeiro Catedrático de Língua Galega do Estado espanhol, introduzindo assim na Universidade os estudos do galego-português na Galiza em plena ditadura franquista.

Não é preciso, pois, que descubra eu aqui a transcendência do ilustre ferrolano para as letras galegas e na construção nacional, pois isso já o fizeram os vários prémios literários recebidos, assim como o Parlamento nacional em 1996 (seis anos após a sua morte, cumpriria denunciar) nomeando-o Filho Ilustre da Galiza.

No entanto, Carvalho Calero, além de recuperar o galego, não quis renunciar ao castelhano, a sua língua da infância. Contudo, este bilingüismo não deve ser percebido como o dos vil-língues, que equivale ao direito de não saber galego. O bilingüismo de Carvalho era mais ‘real’, era o direito de saber galego e de saber castelhano.

Mas em qualquer caso, ele sempre foi ciente de que só o galego era a língua própria da Galiza, só o galego-português… porque Carvalho Calero queria falar um castelhano bom, mas também defendia um galego bom. E já o dizia ele: «o galego, ou é galego-português ou é galego-castelhano».

As acusações de Alonso Montero são lógicas porque procedem de um antinacionalista (é fervoroso comunista espanhol… acima de tudo o de espanhol, saliento) e de um anti-reintegracionista.

A militância política Alonso Montero (desde 1962 milita no comunismo espanhol) é muito importante para perceber os motivos (pessoais e ideológicos) da crítica velada a Carvalho Calero. O próprio Alonso Montero, a diferença de Carvalho Calero, defendeu inúmeras vezes uma escrita do galego à espanhola «porque es lo que los niños aprenden en la escuela» alinhando assim com o falangista Filgueira Valverde.

Esta é uma concepção também própria do comunismo espanhol mais tradicional (e, portanto, espanholista e centralista), que no âmbito linguístico sempre apostou na simplificação que passa por falar quantos menos idiomas melhor (para, supostamente, lograr internacionalizar a mensagem ‘comunista’) e em simplificar as ortografias (para, teoricamente, banir as barreiras de classe).

Então, quando Alonso Montero diz que Carvalho Calero falava em castelhano com a mulher e os filhos, o que quer fazer é dizer que Carvalho Calero não era tão (galego?) como o próprio Alonso Montero ou, se lemos toda a entrevista, algo assim como que um nacionalista como ele era menos galego do que um comunista como eu. Pois abofé, digo eu, que se todos os nacionalistas galegos fossem como Alonso Montero, muito mal lhe iria ao nosso país… no mínimo, igual de mal que ao nosso idioma na Galiza. E, decerto, se todos os nacionalistas fossem como Carvalho Calero, ganharia-se muito mais de dignidade pessoal.

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