Desafio filológico: à procura da parrocha original!

O amigo Galegoman deixou no Chuza um curioso artigo que me suscitou uma profunda curiosidade filológico-sexual. A cousa é que no título mencionava-se a forma perrecha como sinónimo de cona (vulva).

Pois bem, na minha terra esse órgão é conhecido como parrocha (além de cona e alguma outra fórmula), vocábulo que por outra parte é polissémico:

Parrocha s. f. (1) Zool. Sardinha nova, pequena. N. C. Sardina pilchardus. Sinón. Xouba. (2) Cabana, casoupa para guardar ferramentas ou para abrigar-se. (3) Açoute. (4) Cona.

//estraviz.agal-gz.org

Como se observa, só o quarto resultado coincide com a fórmula empregue na minha terra… Mas a questão ainda se complica mais ao observarmos (também através do dicionário e-Estraviz, acima ligado) que juntamente com perrecha e parrocha existem mais duas formas, pachocha e perracha.

Tendo em conta que as quatro formas (pachocha, parrocha, perrecha e perracha) exibem uma surpreendente similitude (resumida na sequência P[v][c][v]CHA, onde v=vogal e c=consoante), isto dá para pensar numa origem comum dos quatro vocábulos.

Anima-se alguma filóloga ou filólogo a completar a sequência e fornecer-nos o vocábulo original? Nem sei se filologicamente seria um verdadeiro desafio, mas a verdade é que resulta interessante ou, no mínimo, bem curioso 🙂

ACTUALIZAÇÃO

Mercê o amigo Nuno acrescentamos uma quinta variante à série, parracha, vocábulo que mantém válida a fórmula anterior (P[v][c][v]CHA). Pesquisando na rede sobre esta palavra dei com um web dedicado a Moimenta, uma freguesia do concelho de Vinhais (distrito de Bragança, Trás-os-Montes). No web incluem um interessantíssimo vocabulário típico da zona que, como explica o autor…

[…] não existem no dicionário da língua portuguesa ou, se existem, têm conotações próprias nesta aldeia. A inexistência de cada termo foi sistematicamente verificada na versão on-line, disponível na internet, do Dicionário Universal da Língua Portuguesa da Texto Editora […] e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora […] .

Surpresa enorme quando, pesquisando no interior deste vocabulário, comprovo que dá uma sexta opção para a nossa série… e que se afasta ligeiramente da sequência anteriormente proposta (P[v][c][v]CHA; sequência que na teoria nos deveria ajudar a procurar o termo original). A forma é pachancha, a meio caminho entre parracha (análogo com perracha) e pachocha. Como novidade, inclui um N no meio da sequência…

Cumpre assinalar que o galego (português) transmontano é profundamente arcaico (conservador), polo que em muitos casos é onde se encontram as formas mais antigas de muitas palavras (um bom exemplo poderia ser a forma “áugua”, ainda hoje viva em Mogadouro). Contudo, fica a dúvida de se o N  de parrancha procede com efeito do vocábulo originário ou, porém, é uma evolução própria do galego (português) transmontano, caracterizado por uma forte nasalização nalgumas palavras (como na forma dialectal munto, muito, onde como sabemos o ditongo é nasal).

RESUMINDO, agora temos: pachocha, parrocha, perrecha, perracha, parracha e pachancha. Acabará aqui a sequência? Toparemos a parrocha original?

  • en lyon (francia) hai unha estación que se chama
    gare de perrache
    😀
    pero creo que non ten nada que ver 😀

  • Apaixonante mesmo! Sinto, mas nom podo ajudar-te, amigo Galeguzo! Nom sou um experto na matéria! ;-P

  • G

    por aqui usa-se, por vezes, o termo ‘parracha’. que significa cona 🙂

    e já estive na gare de perrache e, lamento, não tem forma de cona.

    abraço

    • Parracha! Mais um termo para a nossa colecção, que já passa de quarteto para quinteto!!

      Novamente, evidencia-se (ou isso parece) a origem comum de todos os vocábulos, pois também PARRACHA mantém a fórmula básica: P[v][c][v]CHA :))

  • one2

    Sem ter nem idéia, digo que é um castelanismo e que vém de «perro» 😀

    • De “perro” a “pachocha” não acabo de visualizar bem o processo 😀

      • one2

        é bem simples 😀

        |_perro
        –|
        –|_perrecha
        –| |
        –| |_perracha
        –| | |
        –| | |_parracha
        –|
        –|_parrocha
        –| |
        –| |_pachocha

        Aproximadamente 😀

        • Agora já visualizo melhor… perraaaaaca 😉

  • one2

    pois pesquisando por aí atopei isto:
    //ilg.usc.es/ilgas/Publicaci%F3ns/VolALGa_V_Indice.pdf

    Ainda que só é ũa lista de palavras (cuido que sobre o corpo), hai ũa cheia de variantes que suponho que tenhem a ver coa nossa perrecha: perrocha, perrechinho, perrancha, perra chica (?) etc. :-S

  • olizinho

    pois vendo o que comenta one2 , nom parece agora tam dificil a ligaçom perra-pachocha, pois nom há tanta distancia perra chica-perrocha !!

    • Não há distância aparente… mas dá-me no espinhaço que “perra-chica” não é o étimo que procuramos, mais que nada porque perra-chica é um termo importado do castelhano no século XIX para designar umas moedas da época que tinham no seu avesso um leão mal debuxado, tanto que semelhava uma cadela. Em castelhano deu-se-lhe o nome de “perra chica” à de 5 céntimos e “perra gorda” à de 10. Possivelmente da mesma época é o termo galego “cadelas” ou “cão” aplicado ao dinheiro (não ter uma cadela / não ter um cão).

      Ainda, ao se tratar de uma moeda espanhola, dá mais dificuldades para explicar como chegou a palavra a Portugal, e muito mais de como teria passado de aplicar-se do dinheiro para representar o órgão sexual (e não me valem jogos fáceis com a prostituição ;)).

      Algumas fontes orais que consultei asseguram-me que parrocha e família aplicados ao órgão sexual feminino são anteriores ao século XIX, o qual dá mais um argumento para desestimar a (curiosa e interessante) teoria de “perra chica” como étimo original 😉

  • A verdadeira pergunta é:

    Como é que passa uma palavra de significar cona a significar sardinha, cabana e açoute? XD

    Um desafio filológico que merece a pena, por certo 😀

    • Certamente é curioso. A mim ocorre-se-me uma explicação, e é a de que o termo “parrocha” para identificar sardinha, cabana e açoute fosse coetâneo ou preexistente ao sinónimo de “cona”.

      De momento, polo que me comenta o pessoal, a forma “parrocha” como equivalente de “cona” não existe nas zonas de costa [não demonstrado], talvez precisamente para evitar o equívoco, daí que pareçam triunfar nessas zonas variantes como “perrecha”.

      Logo, nas zonas do interior ou não costeiras, ocorre-se-me que nalgum momento histórico o étimo originário que procuramos (P[v][c][v]CHA?) foi confundido com “parrocha” (pola similitude fonética). O facto de esta palavra já existir teria colaborado a afixar a forma e novo significado.

      Como digo, é apenas uma teoria e que perfeitamente poderia ser possível se atendermos a outros exemplos que se dão na nossa língua.

  • Cousa boa: Debates de língua sobre conas 😀

    • Isto é normalização linguística… e o resto, conachadas 😀

  • betanzos

    Como que non existe na costa?

    En Betanzos contaronme un chiste: Cal é o peixe con máis pelo?

    : A parrocha

    Bastante gráfico…

    • Não tinha constância de que a palavra fosse conhecida na costa com essa acepção… em qualquer caso peço desculpas, ainda que já tinha advertido que carecia de confirmação a respeito 😀

      • SaraC

        Na zona de Vigo (costa) utilízouse sempre parrocha como sinónimo de cona, especialmente coas nenas pequenas para facer referencia aos seus xenitais: “a parrochiña”. Canto a parrocha como sinónimo de sardiña, é unha palabra que non só non se utiliza senón que normalmente se descoñece en favor do uso de xoubiña.

  • No território português também se di “perreca”, como se demonstra neste áudio dos humoristas nortenhos Quim Roscas e Zeca Estacionâncio (nos minutos 1 e 3 ou assim):

    //bestrock.clix.pt/player/frame_player_6_4.asp?filename=bestrockonline/arquivo/br_fmhisterico1_2_2008-05-12.wma&cover_image=/images/histerico.jpg&image_1=/images/player/miolo_but_autor.gif&image_2=/images/player/miolo_but_dia.gif&image_3=/images/player/miolo_but_empty3.gif&image_4=/images/player/miolo_but_empty4.gif&item_1=2%20%C2%AA%20Feira&item_2=Fm%20Hist%C3%A9rico&item_3=Com%20sotaque%20do%20Norte&item_4=

    Isso também rompe com o esquema P[v][c][v]CHA… o deasfio é complicado 😉

    Acho que ninguém antes se baseara num programa da “Bestrock.fm” pra um estudo dialectológico 😀

  • maceirax

    É que eu sen ilustracións nunca entendo os dicionarios 😀

    • Prometo que no e-Estraviz do web 4.0 incluiremos exemplos interactivos dos verbetes 😀

  • Tenho que lembrar a afamada “Rota da Parrochinha”?

  • Pensando-o melhor, deve ser parreca, e nom perreca:, com se vê no tema deste fórum:

    //foruns.pinkblue.com/goforum.aspx?g=posts&t=237410&p=1

    Erro de transcriçom 🙁

    Informam-me de que há quem chame “perrisco” ao órgão sexual masculino!

    • A transcrição pode estar bem… ou mal, segundo se mirar. Lembremos que em muitas palavras e dialectos galego-portugueses o “a” átono pode converter-se num ‘e’. Um exemplo seriam as formas do galego mindoniense “jentar” (jantar, *xantar) ou “queixão” (caixão, *caixón). Assim, tampouco seria estranho que nalgumas zonas a palavra “parracha” se leia “perracha”, etc.

      Por outra parte, na zona central e meridional de português o CH soa igual que o X. Talvez por esse motivo “parracha” tenha dado por alô “parraca” (do contrário seria algo como *parraxa).

      A forma “parreca” parece-se-me com “faneca”

  • louBáM

    Nom queria eu ser desagradável, mas a relaçom parrocha peixe -> conacha suspeito tenha a ver com sensaçons percebidas na zona pituitária dos que a ela achegam 😛

    … e concordo com maceirax

    • Homem, isto poderia levar-nos a que talvez o termo originário seja PARROCHA (=xouba, sardinha pequena) e daí tivesse derivado para designar o órgão sexual feminino, também conhecido como “pescada” ou “bacalhau” em galego-português.

  • SaraC

    Toponimia:

    //www.xunta.es/nomenclator/arbol.jsp?prv=3&con=338&par=3759

    A Parrocha: lugar da parroquia de Bembrive, sito en zona alta do interior e dominado por igrexa e cruceiro.

  • louBáM

    Em Vilalba também há umha Parrocha… polo menos, cuido que na parroquia de Noche.

    Hmm, mas juraria que na última visita nocturna a tal concelho havia mais 😛 😛

    • Sempre me inquietou o nome de Noche (pronunciado com ‘o’ fechado, “Nôche”)… sobretudo porque também existe o topónimo Nouche. Talvez seja coincidência.

  • Recurso audiovisual:

  • Por se serve de algo, parrocha também se di por sardinha pequena em Astúrias e em Andaluzia

  • Nom cuido que parrocha e perrecha sejam duas formas da mesma palavra. O feito de mesmo existir topónimos (e apelidos “Parrocha”) nom fai provável que tenha a mesma origem que “perrecha”, que penso que deve vir, efetivamente, de perra+echa (-echa como diminutivo, ver p.e. “pequerrecha”). Isto de usar animais peludos para falar da cona nom é nada novo. Perreca deve ter a mesma origem, mas com -eca (ver de Zé, Zeca, etc.)

    • Home, nom sei… o raro é que, sendo umha palavra que se refire à moeda espanhola, exista também em Portugal…

      Já que estou… Mui bom o podcast! estou-no a ouvir agora mesmo (acabo de vê-lo no PGL) 😉

      • one2

        home, nom sei agora mais antes a palavra «perro», tanto na Galiza como em Portugal, parece que era bastante conhecida, pois aparece no estraviz, no priberam e na infopedia.
        E ademais nom aparece soa, senom que aparecem tamém outras palavras derivadas dela coma «perrice», «perra», «perraria» etc.
        mm e na Galiza temos «perralheiro» que nom aparece no estraviz… e que eu suponho que tamém vém de «perro»…

        • Sim, isso é certo, ao menos numa zona de Portugal que conheço bastante bem: Trás-os-Montes. “Perro” é palavra de uso frequente tanto nos territórios de fala mirandesa [asturiana] (como Palaçoulo/Palaçuôlo) quanto nos de fala galego-portuguesa (como Mogadouro).

          • one2

            Dúvida! Ti que tés contatos 😀 por que nom vém «perralheiro» no estraviz? porque é incorreta ou porque se esquecêrom dela?

  • one2

    E dizer que a orige de «perro», ainda que existem algũas teorias, tamém é desconhecida.

  • Entom se quadra a evoluçom perra-pachocha que se comentava é certa 😀

  • Francisco Fernández Rei no livro “Língua e território”

    O termo parrocha posiblemente sexa da familia de adxectivos como parròlo, parrèlo ou parramèlo, que en galego se din de árbores, mesmo de persoas, de pouca altura. De ser así, segundo Santamarina (Ríos Panisse 1977: 220) parrocha derivaría da palabra parra (referida á vide). Corominas non dubida que se trate dunha forma galega, tendo en conta que parrocha
    aparece en Sarmiento, que a documenta en Santiago no canto da xouba de Pontevedra e do bucareu de Viveiro, e que tamén se documenta en Cornide e Valladares. Sobre a orixe, suxire que podería estar relacionada coa forma galega parrulo ‘pato’, que no portugués trasmontano é parro, parra (Corominas/Pascual 1981: s.v. parro). Para Santamarina, semanticamente é menos verosímil que parrocha se relacione con parrulo.

    • Mmm… a verdade é que postos a convencer, convence-me mais o de “parra”. Seria logo “parracha” o étimo original? Lembremos, em qualquer caso, que a folha de parra era a que tapava as “vergonhas” em muitas representações iconográficas (em ocasiões também uma cuncha).

  • one2
  • Ostiá! Nunca deixarão de surpreender-me os comentários deste artigo 😀 Bom, “Pachoucha” essencialmente partilha o modelo de outras formas… talvez o ditongo “ou” seja uma característica própria das falas transmontanas, pois ali (igual que no galego oriental das Astúrias) também dizem “ourelha” e mesmo “ouvelha”.

  • Queda confirmado entom que aqui cada um diz umha cousa diferente… 😀

  • a conta das conas xa fixeron vostedes o 5% do traballo da AGLP 😀

    • Revisa as tuas percentagens, Alema 😀 Ainda, a nossa pesquisa estendeu-se também a Trás-os-Montes (que eu saiba, Portugal ;))

  • Esgaravelho

    Eu vou acrescentar algum dado mais da galeguia de além-mar, o que poderia ser umha possível evoluçom da palavra… No Brasil (nom sei se em todo o pais mas sim em parte importante) entre os muitos nomes que tem a cona existem os de ‘precheca’ e ‘perereca’.
    O que vos parece aos filólogos? Será um estranho evoluir desde perrecha… ou pura coincidência?

  • Cecílio

    Biba,
    bou screbir an Mirandés.
    You staba a percurar por la palabra “parracha” pa ber se tamien ye ua palabra pertuesa; pus you tengo dues lénguas de nacença: Mirandés i Pertués.

    Peç-me que essa palabra ben de l Mirandés i tanto puode ser ne l masculino: parracho; cumo femenino: parracha.

    Ne l miu ber nun ben de perro; la palabra mirandesa perro tamien nun ten ua splicaçon clara; diç que ben por ls perros séren pa guardar ls ganados an Roma.

    Parracha benirá de “Racha”; an pertués “Fenda”; nun percisará splicaçon.

    (an mirandés “ch” lei-se “tch”).
    Abraços,
    Cecílio

    • Cecílio, obrigado pelas suas explicações e obrigado também por responder em língua mirandesa.

      A filiação de “parracha” com “racha” (palavra também utilizada na Galiza) poderia fazer sentido sempre que ‘parracha’ seja a palavra originária.

      O desafio do artigo vai, precisamente, na direção de averiguarmos entre todos qual é a palavra original e quais são as derivadas.

      De qualquer jeito, parece que se trata de uma palavra (como tantas outras) que não entende de fronteiras entre o aquém e o além Minho 🙂

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