Cartas da emigração [I]

Levo dias a procurar na minha casa, quando lá vou alguns fins-de-semana, o que eu chamo de jeito humorístico um documento histórico do reintegracionismo. Ainda não voltei localizá-lo (mais sei que lá anda, pois ainda falei há uns anos com o autor do mesmo sobre o seu conteúdo), mas sim encontrei umas quantas cartas (algumas, nem as conhecia) enviadas pola minha família nas emigrações brasileira e suíça, como também de alguns parentes que em pleno franquismo estavam fazendo o serviço militar fora do país (em Alcalá de Henares e Huesca, em concreto).

Reproduzo logo uma missiva seleccionada de jeito aleatório (acompanho-a de transcrição literal o mais fidedignamente possível). Julgo de interesse vários aspectos que comento afinal do artigo.

Reproduzo aqui uma carta enviada da emigração familiar (a transcrição vai dentro do artigo).

cartascaetano1983_1

San Caetano do Sul, dia 11 del Siete de 1983
[DESTINATÁRIO]

Querido primo deseo que esta te enquentre bien de salud que dando la nuestra bien gracias Dios.

Primo es con pesares grandes que me asocio a ti ala tia [TIA] y toda la Familia, por mandarte los pensames por la muerte del tio [TIO] tu padre, todos nosotros quedamos tristes por la noticia, [PRIMO] yo se que es muy deficel pero ay que conformarse pues esta es una viaje que todos la bamos hacer, pero tenemos la promesa que el Dios y creador de todo, que mediante Jesus Cristo ay una resurreicion de los muertos y asi nosotgros poderemos bolber aber nuestra familia que ya se murio

[PRIMO] de aqui te dire que bamos llebando la vida tra bajando bastante oy por egemplo estoy de bacaciones que las tienen todos despues de un año de trabajo y aprobecho a te escrivir, bueno primo yo creo que oy no te dire mas nada, recuerdos de mis padres para todos bosotros y igualmente de mi hijo e esposa, de mi ya sabes recibes el mas tierno Corazóm de este primo que te quiere mucho y berte desea y los somos [REMETENTES].

A missiva está datada em 1983. Julgo de especial interesse o facto de os remetentes desta carta, nascidos na Galiza mas que na altura levavam mais de vinte anos emigrados (as mais antigas que conservo deles datam de 1961) exibem muitos erros na escrita da língua castelhana que são comuns com os exibidos por outros galegos escassamente alfabetizados em castelhano (lembremos, única língua do ensino até há bem pouco). Também resultam curiosas algumas interferências do luso-galego que poderemos ler nesta carta (como «una viaje» por «un viaje») e nas que irão a seguir.

Por último, comentar que esta carta pertence à primeira geração de emigrados ao Brasil da minha família, isto é, gente nascida na Galiza mas criada no Brasil; foram com seus pais além do Oceano sendo ainda eles adolescentes. Escreviam as suas cartas em castelhano, única língua de instrução naquela altura, mas inçadas de luso-galeguismos (alguns mais brasileiros, outros mais galegos… já iremos vendo). Os primos deles que cruzaram o Atlântico sendo só bebés, juntamente com os filhos desta geração, já só escreveram as suas cartas em corretíssimo português brasileiro. Como é lógico, essas cartas foram igualmente respondidas, apesar de os seus receptores não estarem alfabetizados na ortografia do português (e menos na do correto português brasileiro).

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