Sectarismo nas redes sociais: Chuza e as Wikipédias

Antes de mais, queria começar este artigo parabenizando o amigo O Demo por ter desmontado tão bem algumas das falácias que pudemos ler nestes dias sobre a aparente crise que sofre Chuza.

Como tenho comentado em vários lugares, e também em privado com algum chuceiro, cuido que cumprem duas cousas.

Primeira Cousa

Em primeiro lugar, cuido que o pessoal não deveria dramatizar. Em Chuza, nestes momentos, não se passa nada mais diferente do que tem acontecido outras vezes desde a sua criação. Eu não vejo mais sectarismo do que antes, nem mais censura nem nada que se lhe pareça. Vejo, como é lógico, um relevo cíclico de preferências, de introdução de modas e de alternâncias no “poder” chuceiro. Nos começos falava-se falazmente de uma Máfia do Fedelho que controlava o que se publicava e o que não, e agora fala-se com igual ou maior falácia de uma Máfia Reintegrata-separatista que o pretende controlar tudo.

Em ambos os casos alude-se a que isso introduz uma falta de variedade na capa de Chuza e blá-blá-blá. Resulta estranha a crítica, quando Chuza é o resultado das filias e fobias dos seus usuários, a submissão ou superação das mesmas, assim como da interacção entre usuários e a participação mais ou menos activa, entre outros factores. Em resumo, e com menos léria, Chuza é como é porque é o reflexo puro do comportamento dos seus usuários em cada momento concreto.

Esta afirmação é categórica e indiscutível, porque o próprio funcionamento de Chuza exige que seja a participação dos seus usuários e o seu voto (positivo, negativo ou simples abstenção directa ou passiva) a que determine a composição da sua capa. Cada usuário, dentro dos seus gostos e fobias, valoriza as notícias, e as mais valorizadas passam à capa. Como parte deste processo, o usuário adquere ou perde karma. Quando o adquere, o seu voto passa a ter mais valor, polo que são precisos menos votos positivos para fazer que uma notícia chegue à capa e, na parte contrária, contribui a que uma notícia com voto negativo tenha mais dificuldades para manter-se e não ser chumbada. Quando o usuário perde karma, o seu voto vale proporcionalmente menos, polo que aporta menos karma à notícia e esta tem mais dificuldades para chegar à capa. Berto poderia explicar melhor o processo e todas as variáveis que entram em jogo, mas essencialmente é isso.

Portanto, os usuários com mais karma são aqueles cujo comportamento em Chuza recebeu mais adesões, ou seja, as notícias por eles enviadas foram mais vezes publicadas, e as notícias que chuzaram de outros também o lograram com maior frequência. Isto indica-nos que se uma série de temas predominam em Chuza é porque esses temas receberam mais adesões e, por outra parte, os usuários que as promoveram, também. É uma relação mútua e que prova que Chuza é o que querem os seus usuários. Isto tem relação com as máfias, que será algo tratado mais adiante.

Segunda Cousa

Em segundo lugar, há tempo que se aprecia mal-estar em muitos usuários por uma aparente vaga de sectarismo. É inegável que algo disso há mas, como digo, não mais grave do que tem acontecido noutros momentos. E é que, como já comentei, os usuários movem-se por fobias e filias. Eu, particularmente, não vejo nada mau em que a gente vote em função das filias, ou seja, dos gostos. Seria hipócrita pedir a um usuário que renunciasse aos seus gostos com tal de que Chuza seja um sítio com capa mais variada. Eu reconheço publicamente que os meus gostos principais têm a ver com a língua (em múltiplos aspectos), a política (idem) e algumas cousas categorizadas por outrem como “freaks”. Portanto, tenderei mais a enviar cousas sobre esses temas e a apoiar os que outros enviarem. Para mim é um comportamento lícito, outra cousa é que seja ou não o desejável em Chuza (e porque não havia-de sê-lo??).

Porém, na segunda vertende, as fobias, as aversões… Detecto que desde a introdução dos votos negativos nos comentários isto foi acentuado. O que devia ser em princípio um instrumento para a moderação de comentários acabou derivando em muitos casos num castigo ou perseguição à pessoa. Algo disso acontecia já com as notícias enviadas e cuido que aí foi atinada a revelação dos votos negativos, e que até certo ponto logrou rebaixar os negativos motivados por simples fobia à pessoa (ou ao tema, mas isso é já o de menos). Com frequência vemos comentários que sem motivo aparente recebem castigo de voto negativo anónimo, o qual contribui para que se abuse deles e, ao tempo, enrarece o ambiente. Ainda, há certa falta de cultura sobre o negativo às notícias, e muitas pessoas confundem a crítica à notícia com uma crítica à pessoa, recebendo muito mal os votos negativos. Se calhar aí algo de pedagogia poderia ajudar…

As máfias

Em Chuza, como nas Wikipédias ou outras redes sociais onde haja diferenças de usuários em base aos roles (moderador, administrador, burócrata…), à quantidade de karma (4, 15, 18…), à antiguidade (dias, meses, anos) ou outros factores, há uma série de comportamentos articulados por filias e que costumam desembocar no castigo a quem manifesta filias opostas. O aglutinamento por gostos é inevitável, mas costuma falar-se de máfias quando os ditos comportamentos se manfiestam em grupo. Isto é, quando um determinado grupo de usuários, geralmente de categoria “alta” (com role superior, mais karma, mais antiguidade, etc,) se movem em bloco para apoiar determinados temas e chumbar outros.

Na minha opinião, isto é mais factível quando a posição alta é perene a partir de um ponto (como a antiguidade, que não se perde salvo baneio) ou por designação (como os roles), mas não a vejo tão factível numa rede social movida polo karma, que é um status variável (quem hoje tem 19, à semana pode estar em 10). Caso de haver máfias, estas devem ser fracas ou efémeras. Nos começos de Chuza falava-se da Máfia do Fedelho aludindo ao grupo fundador de Chuza (Berto e amigos mais próximos), juntamente com alguns dos usuários que desde o começo tiveram mais actividade e se juntavam todos para falar no Fedelho. Existia a crença de que mutuamente se apoiavam nos seus envios e que se punham de acordo para chumbar outros. É impossível estar na cabeça de todo o mundo, mas mesmo que tivesse sido assim, não faltaram exemplos em que essa máfia actuou de jeito desunido. Ou seja, que não chegou a ser tal máfia ou o seu governo foi efémero 😀 E quando algum dos seus próprios integrantes nega a existência da mesma… bom, sobram mais explicações.

Nas Wikipédias, muito ao contrário, as ditas máfias existem, e entre os usuários com roles “altos” organizam-se grupos que mutuamente se apoiam e põem de acordo para promover ou descartar novas, praticamente sem crítica alguma. E do mesmo jeito também acordam candidaturas para promover ou degradar outros usuários, criando comunidades endogâmicas. Estes comportamentos acabaram por levar a que entre Wikipédia e Wikipédia haja tantas normas de comportamento e critérios divergentes (até contraditórios), e motivam que sejam poucos os novos usuários que se decidam a envolver-se a sério nos ditos projectos (disto já falarei mais em profundidade). Mas, reitero, a existência do karma (cujo funcionamento poderia ser melhorável) julgo que impede levar isto à prática em Chuza (salvo que o seu proprietário assim o decidir).

Soluções?

Desde logo, eu não tenho a chave divina que dê uma solução mágica e infalível. Como ser humano falível e imperfeito, apenas darei algumas sugestões fruto da minha experiência pessoal, sensações e limitada e imperfeita capacidade de empatia.

Na minha opinião, uma boa ajuda para recuperar o bom ambiente e minimizar o impacto de futuros relevos de “poder” à frente de Chuza seria o estabelecimento de umas normas de comportamento fruto do consenso e que recebessem a adesão do proprietário de Chuza, posto que ele é a única pessoa que junta em si os poderes Legislativo, Executivo e Judicial de Chuza. Isto é, só ele reune a um tempo as faculdades de promover normas, velar porque se cumpram e castigar o seu incumprimento.

Até o dia de hoje sucederam diferentes factos (que não sei se paga a pena lembrar) que minaram a legitimidade de algumas normas não escritas (ainda que as mais delas sim estavam escritas nas FAQ de Chuza e na wíki) e dos seus promotores. Noutras palavras, em mais de uma ocasião a pessoa que dizia que “não se pode fazer isto” era a primeira em fazê-lo, e quem dizia “isto é bom para Chuza” acabava por dizer que “isso é mau” quando por algum motivo os seus interesses particulares (fobias/filias) entravam no jogo.

Se Chuza, como comunidade heterogénea,não é capaz de dotar-se de umas normas de comportamento civilizadas e comuns, que primem as filias sobre as fobias e apoiem incondicionalmente o mútuo respeito às pessoas, melhor será que venha o proprietário (e webmaster) e as imponha. Feito isso (de um jeito ou de outro), quem adira que continue a colaborar e quem não o faça que volte para a casa. Claro e meridiano e não se passa nada, que imagino que a ninguém lhe irá a vida nisso.

Addenda

Em qualquer caso, eu desdramatizaria as cousas. Com paz e bom ambiente tudo deve ir polo bom porto 🙂

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