O galego existe desde há só duzentos anos? Quatrocentos anos?

Dogmas do isolacionismo
Dogmas do isolacionismo

Título alternativo: Método científico para demonstrar de uma perspectiva isolacionista que a língua galega não existe

Dogmas do isolacionismo:

    1. O galego e o português têm uma origem comum que se remonta à Idade Média.
    2. Naquela época floresce uma literatura comum, chamada galego-portuguesa, essencialmente idêntica e unitária em ambas as duas ribeiras do Minho, mesmo apesar de o Condado Portucalense se separar do resto da Galiza entre 1128 e 1139.
    3. O documento literário em galego mais antigo que se conhece é Ora faz ost’o senhor de Navarra, datado entre 1170 e 1220 (posterior à independência de Portugal!), e cujo nome obedece a que começa com as frases:

      Ora faz ost ‘o senhor de Navarra, / pois en Proenç’est’el-Rei d’Aragon; / non lh’an medo de pico nen de marra / Tarraçona, pero vezinhos son; / nen an medo de lhis poer boçon / e riir-s’an muit’Endurra e Darra; / mais, se Deus traj’o senhor de Monçon, / ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.

    4. Num momento indeterminado, o galego e o português começam a separar-se. No século XV ainda se considera que a língua é a mesma (com algumas diferenças gráficas devido a que na Galiza se instalam escrivãos de origem castelhana)…
    5. … mas menos de dous séculos depois, com o Padre Feijó e o Padre Sarmiento, “os ilustrados”, já se considera que o galego e o português são línguas diferentes. No meio de ambos períodos, século XVI e com Portugal anexado ao Reino das Espanhas, um neto de galego, Luís Vaz de Camões, publica Os Lusíadas, e isso é considerado como português (e não galego) polo isolacionismo…
    6. No século XIX, por fim, os precursores iniciam a recuperação escrita do galego e iniciam um caminho que segue até os nossos dias.

Deconstrução:

Chegados a este ponto, uma pessoa com ao menos dous dedos de senso comum não pode menos que escandalizar-se, já que o isolacionismo não oferece um só argumento para indicar em que momento entre os séculos XV e XVII galego e português passam a ser duas línguas diferentes ou porque os textos de Camões, máxima figura histórico-literária de Portugal, são considerados português e não galego.

E não apenas não indica um período em que isso acontece, mas tampouco indica quais foram as causas. Só alude a um progressivo distanciamento entre a Galiza e Portugal, à guerra castelhano-espanhola (com levas de soldados galegos luitarem contra os portugueses), etc., como se um conflito bélico de curta duração pudesse transformar uma língua em duas, e menos ainda quando poucas décadas antes ainda se falava de língua e literatura comuns.

Mas se colhermos ao pé da letra as pretensões isolacionistas, chegamos a conclusões mais terríveis.

Volvamos olhar o texto de Johan Soárez de Paiva, Ora faz ost’o senhor de Navarra, e volvamos analisar o treito citado e repararemos em que o primeiro texto em galego está, horror!, cheio de lusismos (em vermelho) e traços mais característicos da língua portuguesa do que da língua galega (em azul).

Ora faz ost ‘o senhor de Navarra, / pois en Proenç‘est’el-Rei d’Aragon; / non lhan medo de pico nen de marra / Tarraçona, pero vezinhos son; / nen an medo de lhis poer boçon / e riir-s’an muit‘Endurra e Darra; / mais, se Deus traj‘o senhor de Monçon, / ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.

Resumindo um bocadinho, o primeiro texto em galegosó tem os seguintes traços coincidentes com o galego moderno:

  1. Terminações em -n
  2. Partícula pero
  3. Terminação -an por -ám ou -ão
  4. Terminação -on por -om ou -ão

Coincidentes com o português moderno temos, porém:

  1. Forma verbal faz (por *fai)
  2. Uso do ç
  3. Uso do dígrafo lh
  4. Uso o dígrafo nh
  5. Uso da consoante j
  6. Uso dos pronomes mesoclíticos no caso de riir-s’an, que em ortografia moderna portuguesa seria rir-se-ão, considerado um lusismo no galego moderno
  7. Presença do ditongo ui em casos em que no galego moderno temos oi: muito, cuidar

Conclusões:

Dizia que uma interpretação isolacionista ao pé da letra dá para conclusões mais terríveis… para o isolacionismo, é claro, pois a evidência acaba por indicar que o primeiro texto presumivelmente escrito em galego perde com 4 a 7 para ser considerado um texto em português. E se o primeiro texto em galego realmente é o primeiro texto em português, qual é o primeiro texto em galego? Os dos algum dos precursores há duzentos anos? Talvez os dos ilustrados quatro séculos atrás? Diante disto o isolacinismo inicia o seu discurso tautológico e não oferece, como decote, respostas.

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