O ‘ç’, uma letra tão galega como a que mais

Queria dedicar este primeiro artigo da nova xeira (que diria um enxebrista) a um dos grafemas (letras) mais representativos do reintegracionismo. Sem ler o título do artigo, haverá quem pense que tratarei do nh ou do lh, talvez os dígrafos (e igualmente letras :D) mais emblemáticos do reintegracionismo. Pois não, hoje falarei do ç, o cê cedilhado.

O ç é uma letra galega com todo o direito. Desde logo, quem quiser argumentar contra da presença no nosso alfabeto do lh, do nh ou mesmo do j, decerto algum argumento terá, mais ou menos coerente. Ora bem, negar a galeguidade do cê cedilhado cuido que é uma submissão ilógica à língua castelhana.

Argumento 1.- O cê cedilhado aparece já nos mais antigos escritos em galego, e o seu uso continua até o dia de hoje (principalmente mercê à escrita reintegracionista). Prova da sua galeguidade é que autores de todas as épocas utilizaram esta grafia, como a própria Rosalía de Castro nos Cantares Gallegos:

Probe Galicia, non debes
Chamarte nunca española.
Qu’ España de ti s’ olvida
Cando eres ay! tan hermosa.
Cal si na infamia naceras
Torpe, de ti s’ avergonza,
Y á nay qu’ un fillo despreça
Nay sin coraçon se noma.

Argumento 2.-À parte da tradição histórica estaria também a filológica. As palavras com ç provêm mormente de um antigo t+iode+vogal. Por exemplo, fortia > força, natione > nação; mattiana > maçã. Adoptar o cê cedilhado evita nestes casos uma dispersão gráfica desnecessária das famílias léxicas. Assim, se macieira é da família léxica de maçã, não parece sensato escrever esta última palavra com um “z” (seguindo as regras de um idioma alheio). O mesmo aconteceria com forcejar e força ou com bagaceiro e bagaço, entre muitas outras.

Argumento 3.- Por outra parte, temos também argumentos fonéticos, linguísticos ou sócio-linguísticos. A cousa é tão simples como que o isolacionismo optou polo grafema “z” igual que propugna a pronúncia ceceante. Esta pronúncia é cada vez mais maioritária, entre outros motivos, porque o modelo de língua culta (invariavelmente similar ao castelhano) é ceceante, ignorando que boa parte da população galega não o é, e ignorando deliberadamente que a Lusofonia, como é óbvio, não ceceia. Habitualmente utiliza-se o argumento de que os galegos não saberiam pronunciar correctamente o cê cedilhado…  Bom, se calhar isto parte da base de que os reintegracionistas não somos galegos 😀 Também parte do erro de que uma letra é igual a um som, quando só na língua castelhana acontece isso… e nem sempre (reparemos nos valores da letra g ou da letra c diante de determinadas vogais). Um ceceante poderia pronunciar o ç como um noutros contextos (ou seja, como o ‘z’ castelhano), e os não ceceantes poderão seguir com a sua pronúncia quotidiana.

Argumento 4.- Ligado em parte com o anterior, renunciar à letra ç é submeter-se à língua castelhana e afastar-se deliberadamente da matriz comum galego-portuguesa. Como vimos, não existem razões sérias para negar o uso desta letra. Tampouco se pode alegar a que seja minoritária no galego moderno, porque este argumento do minoritário também serve para anular o 90% da norma isolacionista (isto é, se colhemos o argumento, que seja com todas as consequências, não apenas as que interessem :)).

  • 1- cecear non é castelán; é un trazo máis do galego moderno, a pesar de que os reintegracionistas queiran renegar del. o nome do noso país xa é para cecear… imaxina o resto.
    2- renúnciase á letra ç por pura economía, non por españolismo nin farrapos de gaita. en portugués ten sentido porque se distingue entre s sonoras e xordas, cosa que a nós non nos acontece…
    3- rosalía parece que utiliza o ç para marcar que esa palabra se le con seseo… pero a nós iso xa non nos serve porque xa quedamos en que non se le igual que se escribe 😀 (iso tamén lle pasa ao galego RAG por moito que digades 😛 )

  • yuuuuhu…. e iso de “como a que máis” soa a ‘decalque’ do ‘castelhano’ ‘como la que más’ 😛

  • #1 Eu não disse que “cecear” seja castelhano (se bem tenho a certeza de que a sua origem está aí, já que só não existe nas zonas da Galiza mais afastadas da Espanha :D). O que asseverei é que trocar o alfabeto tradicional galego para melhor representar o “ceceio” sim é pregar-se à língua castelhana.

    O que é isso da “economia”? Esse argumento não se sustém. Por economia cumpriria eliminar letras como o “v” ou o “h”, assim como o dígrafo “gu”. Não pretendas defender o indefendível: o ç é uma letra galega que o isolacionismo decidiu converter em proscrita ao adoptar a ortografia e alfabeto do castelhano.

    E se agora reconheces que não se lê igual que se escreve… porquê segues negando a valia das letras Ç e J no “galego moderno” :D? Alema, que descobres os flancos e estamos na guerra ;-)!!

    #2 Pode soar a isso, mas não me consta que o seja :p (E se o for, corrijo-o de imediato!)

  • #3 aceptamos v/b, h e g(u) por unha cuestión de etimoloxía e de tradición literaria… na literatura galega moderna non hai distinción entre j e g, ou entre ç/s/ss/z. co que temos xa nos chega! 😀

  • #4 Por etimologia já demonstrei que teríamos de aceitar o Ç 😀 E por tradição literária, idem 😉 Lamento, vais ter de me procurar outros argumentos XD

  • one2

    Com argumentos tam bons e tam bem explicados nom vás ter tanto éxito coma o alema já que nom hai máis nada a dizer xD

  • Odemo

    One2, argumentar e dialogar de jeito coerente é de débiles e de lusópatas.
    Dar voltas sobre falácias, isso sim é recomendável, e até podes ter encher umha vaga nalgumha academia com isso!

  • Estivem a desenhar um diagrama de fluxo no que constata a argumentaçom circular de isolatas como alema, mas depois reparei que até com ajuda gráfica nom vam percever. Para eles nom é umha questom de lógica ou debate formal, é política e ideologia.

  • foron falar os que separan política e ideoloxía… 😀
    de todos os xeitos, eu non son ningún isolata 😛
    e que pasa? non podo discrepar ou?
    que rosalía usase a letra ç non implica que nós teñamos que usala, porque ela o facía para marcar, insisto, unha palabra pronunciada con seseo… e reitero tamén que é inútil andar argallando un sistema ortográfico que non nos convén porque nós non distinguimos s/ss/z/ç, como tampouco o facemos con j e g.
    ah! e non queiran facer a rosalía reintegrata, que era o que nos faltaba! 😀

  • …e tamén é unha letra castelá, da mesma época ca en galego 😉

  • #10 Certamente. Acho que foi eliminada do castelhano a finais do século XVIII, ao tempo que nessa língua decidiram simplificar a ortografia. Por exemplo, o X passou a J em muitas palavras (“Quixote”, “México”, “dexar”, “baxo”) em que já adquirira essa pronúncia. Igualmente começaram a criar-se regras para o uso de B e V, de G e J, de C e Z… E o “galego moderno” ao que sempre alude Alema copiou disso praticamente sem crítica 😀

    Fer, que bueno que vinistes :D!!

  • Aghurughuuuuuuu!!!!!!!

    O senhor alema reivindicando o seu isolacionismo urbanícola com seu ursinho de acompanhante!!!
    Como se quente muito o debate, a gominola vai-se derreter!!!!!

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