Vivamos como greleiros!

Imagem de odemo.blogaliza.org
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Situemo-nos num país qualquer. A Alemanha, por exemplo. Imaginemos que esse país conta com uma academia de língua (instituição que fixa a norma de um idioma e a actualiza com frequência), plenamente independente e activa. Imaginemos que uma empresa decide criar uma palavra e lhe propõe a essa academia incluí-la no seu dicionário, mesmo apesar de a palavra não existir em qualquer registo linguístico fora de um anúncio da TV. E imaginem que a academia aceita. Surrealista? Com certeza. E deveras ocorreu na Alemanha? Afortunadamente não, porque na Alemanha se regem com normas alemãs. Isto aconteceu na Galiza [PDF] que, como é bem sabido, se rege por normas do telelixo castelhano-espanhol.

Deixando, pois, de falar em clave, a questão é que a Real Academia Galega (RAG), aceitou incluir o verbete greleiro no seu dicionário (que, até onde sei, leva mais de um lustro sem se editar nem renovar, apesar da última reforma da norma) logo de lho ter pedido uma conhecida cadeia de supermercados (shoppings). Algumas considerações sobre isto:

  1. É uma palavra inexistente, tão-só empregue num anúncio. Alguém ouviu falar de berceiro, tomateiro, milheiro, trigueiro…? Acho que mui poucas pessoas, por não dizer ninguém. São palavras criadas polo sufixo -eiro, como tantas outras que poderíamos inventar, e igual de válidas do que greleiro, mas nunca figurariam no dicionário se não contarem com um uso real.
  2. Relacionado com o anterior, pola mesma regra de três teríamos de meter no dicionário todas as palavras que acabam em -eiro, desde marcianeiro (que se assemelha a marciano) até parveiro (que parveia, que faz o parvo), por não dizermos pinheireiro (que planta pinheiros?) ou empadeiro (que faz empadas, igual que o padeiro faz pães).
  3. Polo geral as academias são acusadas de estar muitos passos por trás da sociedade. Isto é, no caso da RAG, mais patente do que em qualquer outra academia, entre outros motivos porque é uma instituição totalmente inoperativa, inútil e um cancro económico. No entanto, com esta operação de marketing mais digna de uma barra de bar (não deixa de ser curioso que a sede da academia esteja na corunhesa Rua Tavernas) adiantou-se tanto à sociedade que deve ser o primeiro caso no mundo de uma academia a criar uma palavra antes de existir como tal a realidade que denomina…
  4. … porque, até onde sei, greleiros, muitos greleiros na Galiza não deve haver, entendo esta palavra como pessoa que se dedica essencialmente a cultivar grelos. Reitero o de «até onde sei», porque acho que algo sei do agro galego, e os monocultivos não são nem muito menos a estampa dominante. Mesmo poria a mão no lume porque quantitativamente são mais os pataqueiros ou berceiros. Isto, por não falarmos dos empadeiros, tão dignos como os padeiros!
  5. Por último, acho que mais do que ‘propaganda’ em prol do galego e sintoma de modernidade, esta notícia constitui uma simples publicidade gratuíta (e legitimação ideológico-linguística: lembremos o vivamos como galegos!) para uma empresa que constantemente sai nos meios por casos de acoso laboral, vulneração de direitos, etc.

NOTAS FINAIS:

  1. A imagem do grelo azedo foi colhida do blogue do amigo Fer [[O demo me leve]].
  2. Parafrasando PostScriptum, irá o dicionário da RAG (com o verbete greleiro) acompanhado deste DVD?
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