Bélgica e as políticas linguísticas nacionais

Belgium-language-mapUltimamente fala-se muito da ruptura em Bélgica entre os valões (francófonos) e os flamengos (neerlandófonos… reintegracionistas :-D). No entanto, trata-se de uma divisão lógica em todas aos Estados criados de forma artificial, principalmente quando uma parte da sociedade pretende impor-lhe a língua e a cultura à outra, e sobretudo quando isso implica merma dos direitos.

Contudo, a Bélgica é hoje em dia um espelho no qual se olhar. É um exemplo da luita polas liberdades linguísticas (dos flamengos face aos valões), um caso de vitória do reintegracionismo (consagrando o flamengo como o mesmo idioma que o neerlandês, cedendo no necessário), mas também um caso do bom funcionamento de uma política linguística de carácter nacional.

Porque uma autêntica política linguística só pode funcionar se for isso, nacional, quer dizer, dependente da nação (neste caso, a Flandres). Divindo a Bélgica em regiões linguísticas e cedendo as competências sobre cada uma aos seus respectivos Parlamentos, conseguiram os flamengos não apenas salvarem o seu idioma (minoritário no conjunto belga a começos de XX), mas convertê-lo no idioma dominante no Estado (actualmente 2 em 3 belgas falam neerlandês).

Este sucesso conseguiu-se, é claro, declarando o bilinguismo no Estado belga, mas um bilinguismo autêntico e não absurdo. Bilinguismo é assinalar que o Reino da Bélgica tem dous idiomas oficiais (em verdade são três contando o alemão, oficial na zona leste com vários miles de falantes mas sem Parlamento próprio)..

Bilinguismo é também decretar que o valão é o único idioma oficial na Valónia e o flamengo na Flandres (e os dous em Bruxelas, a capital, situada no território flamengo mas de maioria francófona). E bilinguismo é, porque não?, exigir e lograr que a família real belga, tradicionalmente francófona, tenha de dominar também o idioma neerlandês e pronunciar nos dous idiomas os discursos institucionais.

Isto é bilinguismo, e o resto são punhetas mentais.

  • mas aqui umha prática semelhante a essa implicaria duas condiçons que nom se estám a dar: 1ª um maior pesso político do nacionalismo galego no conjunto do Estado, que nom tem aparência de espectacular crescimento asinha (e menos se triunfar essa medida eleitoralista da ultra-direita da reforma da lei eleitoral); e 2ª: a reuniom dos nacionalismos ditos periféricos (ainda quando apenas geograficamente) a fazer força contra o assimilacionismo espanhol.

    Em qualquer caso, vejo que hai mais um impedimento sério. No caso dos valons e os flamengos, estamos a falar de comunidades mais ou menos fechadas e divididas geograficamente, de modo que em Flandres poucos falam francês e na Valónia poucos falam neerlandês. Infelizmente isso nom é o que se passa aqui: Galiza é ainda a naçom que conserva o maior índice porcentual de utentes do galego, mas descende de modo imparável. Euskadi e Catalunha parece que podem recuperar, mas os seus índices som mui baixos. O modelo, polo tanto, acho que nom poderia importar-se, infelizmente.

  • antón

    Vaia, un pracer atoparte no mundo dos blogs, non tiña nin idea de quele lle dabas a isto e cheguei por casualidade ata aquí. Unha pequena puntualización: aínda que estou lonxe de ser un especialista na realidade política belga, paréceme bastante naïf otorgarlle esa centralidade ás compoñentes cultural e lingüísticas do nacionalismo flamenco, cando semella evidente que as desigualdades económicas entre as dúas rexións xogan un papel bastante máis determinante (como sucede, por exemplo, co nacionalismo padano e con moitos outros).
    De calquiera xeito, noraboa polo blog e xa pasarei por aquí. Saúdos.

    Un ex-compañeiro de facoltade.

  • Uz

    Boas, Antón!

    Em verdade, o nacionalismo flamengo dista bastante de ser equiparável ao padano, por vários motivos:
    1) A ‘Padânia’ é um território artificioso que não se corresponde com realidade política ou cultural de hoje ou do passado. É um artifício com intenção claramente discriminatória e criado por um partido da extrema-direita, cuja dialéctica se baseia em norte-ricos e sul-pobres e “tudo para o norte”.

    2) A ‘discriminação’ belga, historicamente, foi praticada polos valões, não polos flamengos. Polos anos 20 do século passado, o XX, os valões (na altura, sobre 60% da população belga) impuseram o francês como língua oficial de todo o Reino belga, consolidando assim uma discriminação que se vinha praticando desde muitas décadas antes, mormente pola rica e opulanta burguesia valona.

    O que fizeram os flamengos foi, justamente, rebelar-se contra essa imposição e exigir para o seu idioma, o neerlandês, as mesmas garantias que para o francês. Isto conseguiu-se com o trabalho de muitas décadas, e foram importantes as pressões internacionais, já que, em primeiro lugar, os flamengos tiveram de aderir a norma culta internacional do seu idioma (a neerlandesa/holandesa) para ganhar força e peso.

    Já só depois a questão foi pola via demográfica, já que se passou de 2/3 de belgas valões para os actuais 2/3 de belgas flamengos, o qual consolidou e deu para a frente todas as iniciativas flamengas.

    Um outro tema é o posicionamento e postulados intolerantes de parte do nacionalismo flamengo actual, em especial do Vlaams Blok (de extrema-direita), que pouca relação mantém com o espírito inicial do chamado ‘voo do flamengo’ que levou para a situação actual.

    Saúde!

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