Carta aberta ao espanholíssimo senhor Ferreira Fernandes

(*) Carta enviada aos endereços direccao@dn.pt e ferreira.fernandes@dn.pt em 08/09/2007.

Sou galego. Nasci na região da Galiza chamada Terra Chã. É um nome que aos espanhóis nada diz, mas com apenas estas duas palavras qualquer português pode imaginar a orografia da zona. A minha aldeia natal chama-se Covelo, que para os espanhóis também não diz nada, mas sim a vocês, portugueses. Poderia seguir com os exemplos e recorrer aos nomes dos meses, aos apelativos… ao dia a dia, em definitiva, e tudo para corroborar uma única coisa: o que nos une a galegos e portugueses.

Porém, fiquei fortemente indignado após ler o artigo «Modernices filhas de reaccionários» (DN, 03/09/07), escrito por um dos seus principais colunistas, o senhor Ferreira Fernandes. Admira comprovar como alguém que recebeu pela sua trajectória jornalística tantas distinções pretenda enganar de foma tão burda e simplista o público português utilizando argumentos somente publicados em jornais da ultradireita espanhola. A seguir enumero todas as mentiras que nesse artigo o senhor Ferreira Fernandes contou aos leitores portugueses e, por extensão, a todas as pessoas conhecedoras do nosso idioma que leram o seu artigo.

1.- «A partir de hoje, os jardins-escolas galegos dão as aulas só em galego». Para começar, não explica que se trata somente dos jardins-escolas que formam parte de uma rede pública chamada Galescolas, que constituem uma ínfima parte do total disponível. Por outra parte, como a todos os jardins-escolas, a decisão de os meninos irem a elas compete aos pais, e se eles os quiserem levar a um centro galego-falante estão no seu direito —a liberdade linguística figura na Constituição espanhola, leia-a—.

2.- «Também se vai ensinar um ‘hino galego’ de um nacionalismo extremo (…)». O senhor omite deliberadamente vários factores. O primeiro, que esta afirmação não figura em qualquer programa educacional da Galiza. Os meios espanhois recolheram-no para polemizar: tratou-se apenas de um ‘desejo’ do vice-presidente galego, quem disse que gostaria que os meninos galegos soubessem cantar o hino do país. Por outra parte, omite também que esse ‘hino galego’ não deve escrever-se com aspas, porque é o Hino Galego. A Lei de Símbolos (1983) declara quais são a bandeira, escudo e hinos oficiais da Galiza, presentes em todos os actos oficiais que se celebrarem em território galego.

3.- O senhor Ferreira Fernandes cita apenas um trecho do hino: «Sós os imbecis e obscuros/ não nos entendem». Infelizmente, o senhor não acudiu à versão original galega, mas à péssima tradução em espanhol publicada no jornal ultradireitista El Mundo (20/08/07). Versão sem nenhum rigor e na qual mesmo se muda o nome do autor, quem de ser Eduardo Pondal passa a figurar como ‘Arturo’ Pondal. Ainda, o senhor Ferreira F. aventura-se com uma interpretação desta frase, mais uma vez um decalque da exposta pelo jornal espanhol. Por outra parte, mesmo que a intepretação fosse correcta —que se chama ‘imbecis’ a quem não percebem o galego—, desde logo é muito menos nacionalista que o que figura n’A Portuguesa, no qual se chama às armas. Mas claro, será que há nacionalismos bons e nacionalismos maus.

4.- Por último, o senhor Ferreira assinala que «esta deriva galega integra-se no menosprezo de uma das grandes línguas mundiais, o espanhol». Esquece mais uma vez o senhor fazer qualquer referência à actual situação na qual vive o galego, como também à imensa massa crítica galega que defende, como historicamente tantos portugueses, que galego e português são o mesmo idioma, e que portanto o galego se deve escrever como o português actual para estar, desta vez sim, na « I Divisão Mundial das Línguas, onde estão o português e o espanhol». Mas claro, imagino que o senhor prefere uma Galiza plenamente espanhola, como também defende o senhor José Saramago. Uma Galiza espanhola e, porque não?, um Portugal espanhol.

Finalizo esta carta aberta com duas simples recomendações para o senhor Ferreira Fernandas nunca mais mentir aos leitores portugueses quando falar da Galiza:

  1. Pergunte aos galegos e viaje pola Galiza para conhecer a sua realidade.
  2. Não utilize como fontes de informação apenas os jornais espanhóis, e repare também nos galegos e contraste sempre —o jornalístico paradigma das três fontes—.

 

Sempre seu,

MdU

Ferreira Fernandes

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