Zas ou Sás? Sesseio VS Thetacismo

Mais um artiguinho toponímico. Ainda na costa, tiramos um bocadinho mais cara a zona da Costa da Morte à mão direita e chegamos ao concelho de Sás, ainda que nos indicadores aparece como Zas. «Mas como, se todo o mundo lá diz claramente “Zas”!?» Com efeito e, neste caso, vai ser que todo o mundo está errado… relativamente. Prometo dar uma explicação bastante satisfactória.

Antes de mais, obrigado por continuares a ler :-)!

Bem, explicar por que Zas é Sás vai ser muito mais singelo do que pôr em causa “Porto do Son“:

  1. O primeiro que é necessário realizar é pôr em causa o topónimo. Seguindo com as regras que já dei no artigo sobre Porto d’Oçom, temos que cumpre desconfiar dos topónimos esquisitos. Neste caso podemos fazê-lo com grande motivo, já que em todo o país apenas se registam dous Zas: o próprio concelho ao qual aludimos e uma freguesia no vizinho município de Negreira.
  2. Procurando variantes, vemos que a Galiza está inçada de Sás (no nomenclátor oficial, Sas). Por citarmos algumas (cito a partir do Topogal por ser mais eficiente à hora de elaborar listagens), temos Sás Dónigas (Sasdónigas), Sás de Penelas, Sás da Ribeira, Sás de Junqueira… e muitos que são simplesmente Sás.
  3. Sás, como a forma singular Sá, procedem do suevo Sala, que seria provavelmente sinónimo de paço ou quinta (Mattos e Silva). A forma medieval deste topónimo (e antes, antropónimo) foi Saa, a qual permanece fossilizada num dos apelidos galegos mais universais: Saavedra ou ‘Sá Vedra’.
  4. Explicar porque no próprio Zas pronunciam o topónimo com o ‘z’ castelhano é doado e à vez complexo de explicar, sobretudo ao falarmos de uma zona caracterizada polo mal chamado ‘sesseio’.
    1. Com efeito, o ‘sesseio’ (inexistência do fonema interdental que o castelhano padrão peninsular representa como ‘z’ ou com ‘c’ diante de ‘e’ e de ‘i’) pode ser considerado um ‘fenómeno’ e, pois, característica minoritária se percebermos o galego como uma língua pequena (o galego-ILG/RAG, circunscrito à Comunidade Autónoma da Galiza, CAG).
    2. Porém, percebendo o galego como uma língua grande, quer dizer, atendendo à lusofonia, vemos que o minoritário é o ‘ceceio’, quer dizer, interdentalização de fonemas que deveriam ser líquidos. É por isso que o fenómeno também é chamado de ‘thetacismo’, pois esse fonema (o do ‘z’ castelhano, o ceceante) representa-se com a letra grega theta.
    3. No galego da CAG, o fonema theta começou a registar-se ao mesmo tempo que avançou a castelhanização e espanholização do nosso país. Cumpre lembrar que no castelhano antigo tampouco existia esse fonema (como provam o castelhano meridional, insular e latino-americano), que tampouco se regista noutras línguas românicas com excepção do castelhano (como já dissemos), do galego da zona central e oriental da Galiza, assim como no asturiano e aragonês, línguas fortemente dialectizadas polo castelhano (com cuja ortografia, ademais, se escrevem actualmente).
  5. Tendo claro, pois, que o ‘ceceio’ é que é o fenómeno, é vez de falar das ultracorrecções. Em zonas não ceceantes (ou ‘de sesseio’), mas nas quais este modelo é o considerado culto (por pressão do galego-ILG/RAG e do castelhano), em muitas ocasiões os falantes substituem consoantes líquidas genuínas e correctas polo fonema interdental theta. Assim, não é infrequente ouvir falar de ‘Ourenthe’ (Ourense), ‘avithar’ (avisar) ou, como já dissemos, Thas (o nosso Zas/Sás).

O facto de Zas ser ultraminoritário (apenas duas ocorrências!), assim como a história do nosso país e idioma, juntamente com a grande dispersão de Sá(s) por toda a Galiza e a Lusofonia, levam para acreditar, sem muita dúvida, forma genuína ser Sás. Contudo, admitem-se críticas e/ou sugestões.

Nota: este artigo faz o número 350 deste blogue 😀

  • O ejemplo mais frequente de thetacismo que eu tenha ouvido na minha vida é a de muitos galegos ensinados em catelhano e depois neo-falantes de galego: Dizem uma e outra vez: ezquerda.

    P.S.: Meu avó apelidava-se ‘Salido’.

  • Isso de “ezquerda” tenho-o ouvido muito em Compostela a compostelanos de toda a vida e monolíngues em galego, e mais que ‘thetacismo’ (ou ceceio) parece mais bem interferência com o castelhano.

    Por ‘ceceio’ entendo mais bem o de aqueles casos em que a ultracorrecção é tal que se diferencia mesmo do castelhano, como era o caso que ponho de “Ourenthe” (ouvido também a portugueses que intentavam falar castelhano, neste caso “Orenthe”).

    Ir pedir “cortithona” a uma farmácia (verídico) sim seria um exemplo mais claro de thetacismo.

    Como acontece com o fenómeno da gheada, ao ceceio produz-se por ultracorrecção interferência do castelhano, por paradoxal que parecer. Assim, onde um galego deveria dizer “domingo”, se falar com gheada diria “domingho” e, por ultracorrecção, falando em castelhano, “guente” por “gente” [isto, totalmente verídico, acontecia mais antes do que agora, mas ainda o tenho ouvido].

    Por certo, e logo teu avô dizia “Thalido”? Ignoro a origem do apelido, mas não me estranharia que pudesse significar algo assim como “lugar onde há sal”, igual que “Seixido” ou “Lourido” significam “lugar onde há seixos” e “lugar onde há loureiros”, respectivamente [-> topónimos em -ido, tema da minha seguinte entrada sobre ‘lugarónimos’ ;-)].

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