O paradoxo do português no Timor: de língua colonial a língua identitária

Uma notícia [PDF] Flag_of_East_Timorpublicada hoje em Vieiros voltou pôr de actualidade a questão da língua portuguesa no Timor-Leste. Na informação bate-se o ponto sobre o paradoxo de o português ser uma das duas línguas oficiais do país (juntamente com o tétum), mas cujo domínio e compreensão atingem uma porção minoritária da população. Para paliar a situação, chegou mesmo a trazer professorado vindo de Portugal, e nos últimos anos tem-se registado um aumento do nível de competência neste idioma.

Para o observador curioso pode parecer contraditório o facto de um país que, como quem diz, se independizou ‘ontem’ (em 2002), e no que as duas línguas mais faladas continuem a ser o indonésio (segunda língua colonial, imposta a partir de 1975 e até 1999/2002) e, precisamente, o tétum. Porque então o português, primeira língua colonial, falada apenas por uma porcentagem ínfima da população, é idioma oficial no país? Trata-se de um paradoxo que, afinal, não o é tanto.

Actualmente são poucos os meios de comunicação digitais que diariamente ofereçam informação sobre o Timor-Leste. Um dos mais actualizados utiliza um blogue para publicar os seus conteúdos. Refiro-me ao Timor Online. Apesar de estar especializado na actualidade timorense, e de fazê-lo sobretudo em português (não renunciando tampouco a línguas como o inglês), aparecem com relativa frequência informações de âmbito claramente lusófono; por exemplo, o anúncio do VI Colóquio Anual da Lusofonia, a celebrar daqui a dous meses em Braga.

A quem esta referência? Pois a ilustrar, precisamente, as conotações que a língua portuguesa tem no Timor. Durante os anos da ocupação (1975-1999/2002), o português, cujos falantes foram genocidados, converteu-se na língua da resistência face ao invasor, principalmente porque ainda na altura servia de língua franca (o Timor-Leste conta com mais de 15 línguas autóctones).

Desde que em 1999 a população aprovasse em referendo o seu desejo de independência, e até recuperá-lo em 2002, o Timor-Leste teve de enfrentar a vontade anexionista da Austrália, autêntica potência da região oceânica, que durante o período transitório desde o referendo despregou vários contingentes militares para a pacificação do território.

Numa conferência ministrada em Compostela haverá uns três anos, o escritor timorense Luís Cardoso defendeu o valor simbólico de impor o português como língua oficial (juntamente, reitero, com o tétum) e não, por exemplo, o inglês. A decisão, talvez controversa, supunha optar polas ligações como a Lusofonia como barreira face aos colonizadores quer indonésios, quer australianos.

Trata-se, pois, de dotar de alguma personalidade diferenciada, de elementos identitários, um país que só viveu colonização durante mais de 500 anos. Uma ilha lusófona (valha a redundância) no meio de um oceano de países anglófonos ou que têm o inglês como língua oficial, constitui um acto de reafirmação identitário que talvez não se teria conseguido com só o tétum ou alguma das outras línguas do país.

Poderia ter sido, com efeito, mas parte da identidade também são as relações internacionais. Assim, igual que Portugal tem uma relação tradicional com a Inglaterra/Reino Unido, o uso do português orienta as relações do Timor cara à Lusofonia —seja como conceito ou for como conglomerado de nações da CPLP—; o qual se traduz, por sua vez, em maior facilidade de intercâmbios comerciais com duas das principais potências económicas: o Brasil (polo idioma) e a China (através da ainda lusófona Macau).

Desde logo, poderemos estar de acordo com o razoamento (que levam praticando desde 2002), mas o certo é que lhes está resultando exitoso, o qual deixa o paradoxo um pouco menos paradoxal.

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