Castelhano oficial, galego co-oficial, ou de como podemos falar galego ‘graças’ aos espanhóis

Diapositivo em que aparece o texto do artigo e uma restritiva distribuição das línguas não castelhanas
Diapositivo em que aparece o texto do artigo e uma restritiva distribuição das línguas não castelhanas

Hoje, mais uma vez, estenderei-me sobre um dos meus temas recorrentes: a consideração do galego como língua de segunda categoria. A prova mais flagrante de as minhas afirmações serem certas está, também mais uma vez, no próprio ordenamento constitucional.

1. El castellano es la lengua española oficial del Estado. Todos los españoles tienen el deber de conocerla y el derecho a usarla.

2. Las demás lenguas españolas serán también oficiales en las respectivas Comunidades Autónomas de acuerdo con sus Estatutos.

3. La riqueza de las distintas modalidades lingüísticas de España es un patrimonio cultural que será objeto de especial respeto y protección.

Todos los españoles (1978) — Constitución Española, artigo 3.

Segundo isto, não dá muito trabalho visualizar a realidade.

Artigo 3.1.- A língua castelhana é a língua espanhola oficial do Estado. Portanto, é também a língua oficial da Galiza.

Artigo 3.2.- Por derivação do ponto anterior, o castelhano é a língua espanhola oficial do Estado, mas o resto de línguas espanholas carecem de oficialidade em todo o Estado. Portanto, mesmo sendo espanholas, não são tão espanholas. Estabelecendo paralelismos humanos, Pessoa-1 e Pessoa-2 dedicam-se a fazer potas, e esse labor realizam-no com a mesma eficácia.

Porém, a Pessoa-1 pode vender potas por vários países (no seu e em vários), enquanto a Pessoa-2 apenas num (no seu). Ademais, Pessoa-1 conta com grandes apoios para a sua actividade comercial, enquanto Pessoa-2 só atopa entraves. Poderia deduzir-se que a Pessoa-1 tem mais privilégios que a Pessoa-2 ou, dito ao revés, que ocupando o lugar da Pessoa-2 se ocupa um lugar marginalizado, de segunda categoria, onde se vê impedida de concorrer em igualdade de condições. Pode parecer um exemplo absurdo, mas ajusta-se muito à realidade dos factos.

Voltanto para a interpretação do artigo, o castelhano é a língua espanhola oficial do Estado, e portanto pode exercer a sua influência em todo esse território. Porém, o galego não é tão espanhol quanto o castelhano já que apenas pode influir na Galiza. Ainda, dá-se o paradoxo de o castelhano sagrar-se também como língua galega: se todos os galegos são espanhóis, e se o castelhano é a língua espanhola oficial para todos os espanhóis (também os galegos), o castelhano é também uma língua galega.

E a carambola legislativa deixa-nos ainda um outro presente, seguramente o mais grave: o castelhano é oficial na Galiza per se, simplesmente por ser espanhol; mas o galego, na Galiza, também é oficial. «Vou a Lugo, e também vens tu». Na Frase, “eu” sou o principal e “tu” o secundário, o opcional. O contrário seria «tu vais a Lugo e também vou eu». Pois neste caso, o castelhano é oficial na Galiza, enquanto o galego, por algum tipo de generosidade, também é oficial. Quer dizer, castelhano oficial e galego co-oficial.

Artigo 3.3.- O último apartado redunda nas duas ideias anteriores. Assim, se o 3.1 sagra sem ambagens a supremacia do castelhano, da língua castelhana; neste último fala-se em geral das diferentes modalidade linguísticas, metendo na mesma saca idiomas (galego, catalão, asturiano…) e dialectos (andaluz, estremenho, murciano…). Ademais, reduz-se o seu âmbito à consideração de património cultural, como os castros ou os restos romanos. Património significa, literalmente, “bens herdados dos pais”. Património cultural não é, desde logo, o mesmo que “activo cultural”, e nem muito menos “elemento identitário” ou “língua oficial”.

Pensai bem nisto, e depois haverá cousas que vos admirem menos.

  • marykinha

    Perdinme… non sei como fixen pero perdinme co caso de se eu vou a Lugo ti…

    A ver se mo podes explicar.

    Bicos e non te martirices… é cuestión de ciclos, e polo de agora, o galego xoga coa vantaxe de que mentras os españois soamente se comunican cos arxentinos, peruanos, mexicanos, venezolanos… os galegos engadimos os nosos veciños os portugueses e aos brasileiros.

    Bicos e coidate

  • Ulmo de Arxila

    Claro, é questom de ciclos. Este ciclo está a piques de rematar, e acto seguido começará outro; mais desta vez, sem nós.
    Dar umha volta por Lugo, por Santiago, inclusive por umha vilucha de má morte como Rábade é um acto de verdadeiro suplício lingüístico. A qualquer pessoa com os olhos minimamente abertos avonda-lhe isso para percatar-se de que os galegófonos temos os lustros contados. E por se fosse pouco, saltam ao cenário os palhaços integrais do Tan Gallego como el Gallego.
    Com as cousas assim, a um entra-lhe complexo de cherokee. Opino que no Courel ainda poderíamos montar umha reserva jeitosa…

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