Tanespañolcomoelespañol

tangall2Reitero-me nas afirmações realizadas anteriormente: o galego, na Galiza, é um idioma de segunda. E o pior é que os maiores defensores desta situação continuam sendo os próprios galegos.

Parte dos galegofalantes defendem a educação em espanhol para conseguir um suposto proveito e ascenso social para o filhos. Outros, castelhano-falantes e mesmo galego-falantes, advogam por um suposto bilinguismo (impossível) que na prática supõe confronto radical contra quaisquer movimentos que procurarem um aumento nos usos do galego. Fora de ambagens há pessoas de um outro sentido que advogam claramente por um monolinguismo em galego ou castelhano.

E é que, ainda hoje, parece que o pessoal não sabe de quê vai o conto. O bilinguismo do que uns e outros falam é, simples e radicalmente, impossível. É a segunda vez que uso a palavra e sublinho-a. A única forma de que num território determinado funcione o bilinguismo e a especificidade territorial (exemplos: Suíça e Bélgica). O resto é um cenário no que o castelhano come terreno diariamente ao galego e ao basco, e onde o catalão subsiste com muito empenho e trabalho.

Volvendo à ideia do começo: o galego, na Galiza, é um idioma de segunda. A situação é assim porque nestes momentos, é perfeitamente possível fazer vida normal no nosso país sendo um completo ignorante no idioma nacional, podendo qualquer pessoa mover-se à perfeição botando mão do castelhano.

Constitucionalmente, o galego é uma ‘língua espanhola’, mas como a própria Carta Magna assinala constantemente, a língua que deveras serve é a castelhana. Nisso é no que se amparam na Galiza os defensores da educação em castelhano e da primazia deste idioma. Realmente são minoritárias as opiniões que pedem um bilinguismo e não ocultam no fundo um desejo de imposição da língua de Castela.

Segundo todo isto, o castelhano é tão galego como o galego, mas a língua da Galiza não é tão espanhola como o espanhol. Curiosa contradição.

Nos últimos dias fez-se bastante conhecida uma plataforma espanholista que, legitimamente, pedem que se lhe ponha o freio aos poucos avanços que vem conseguindo o galego no ensino. Já o fizeram anteriormente no âmbito da Justiça e das Administrações públicas (e seguem-no fazendo). E digo ‘legitimamente’ porque a lei ampara as suas demandas, a começar pola lei de leis que é a Constituição espanhola: enquanto o aprendizado do galego for um direito e não um dever, as suas petições contarão com suporte legal.

Noutras palavras, saber castelhano é obrigatório (uma imposição recolhida na Carta Magna), e saber galego é optativo. E a devandita plataforma acolhe-se a esta situação para exigir o que é obrigatório e apela à economia para prescindir do que legalmente é prescindível, que é o galego. Sim, pode resultar duro e politicamente incorrecto, mas assinalar que o galego é um idioma de segunda é também constatar que é prescindível.

O galego é prescindível desde o momento no que as pessoas que o deveriam defender (os cidadãos e cidadãs da Galiza) renegam de defendê-lo. E é prescindível desde o momento no que carece de utilidade, aqui, dialectizado, afastado da ciência e da modernidade. O galego chegou a tal ponto de abandono que nem as suas elites se molestam em falá-lo. E, quando o falarem, custa grande esforço diferenciá-lo do castelhano. Convertido num dialecto local do castelhano, recluído sobre si mesmo dialectalmente, em verdade não é um idioma sério: o idioma que renega de si próprio, das suas raízes e da sua projecção internacional, não pode pretender sê-lo.

Com efeito, e visto o panorama, é mesmo compreensível que haja quem advogar por deixar-se de pampanadas e optar por um idioma sério e, ao tempo, amparado por todo um aparato legal, militar e de prestigio como é o castelhano que, ainda, é tão espanhol como o espanhol porque não tem necessidade de ser tão galego como o galego.

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Nota
: este artigo está dedicado ao professor Xabier Cordal Fustes [PDF].

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